Carta de D.Manuel II a José Lobo Vasconcelos

    Albcorn

    Richmond

    Surrey,

    Março 1911

    Reservado

    Meu bom e querido José

    Fez-me bem a sua carta. É sempre uma consolação para quem muito

    Tem sofrido o ver que se lhe faz justiça.Pobre palavra tão desconhecida em

    Tão pobre paiz- A sua carta fez-me saudades.! Saudades dos bons tempos em

    que fallava consigo e que tão bem me compreendia. Quiz fazer muito para o meu querido paiz- Como apoio só encontrei o terreno a fugir-me debaixo dos pés. Amava com Verdadeiro amor a minha terra. O meu lindo torrão de terra: queria faze-la feliz, educá-la, civilizá-la, discipliná-la.

    Fui Vencido por aqueles que queriam o contrário, e pode calcular quanto

    Sofro ao ver a minha pátria numa tão triste agonia. A doença é gravíssima.Q paiz está atacado de dois males. Interno e externo.Se o interno não se cura o externo destrói o interno e o Paiz – morre! Esta é a triste verdade. Esperanças tenho em Deus que o velho Portugal há de compreender o monumental erro cometido e a monarchia ha de voltar com gente nova, para então se desenvol ver a produção. Bem razão deve ter quando falla n’ella; e o

    meu bom José Lobo sabe o amor que lhe tinha. Sabe que era a base da minha vida – o DEVER . Ninguém queria semelhante base; Ninguém dos que então podiam fazer alguma coisa amava o dever e o trabalho. O lema da minha vida que adoptei no Porto o era; eu amo

    os que trabalham.Sempre quia proteger e auxiliar as classes trabalhadoras. Que luctas tive! Quiz fazer casas baratas, quiz fazer inquéritos ao operariado, quiz fazer Credito agrícola; etc. Que lucta meu Deus! Quando tinha metade feito cahea o ministerio e tudo se sumia: era preciso recomeçar: Lembra-se meu bom José das nossas conversas do Bussaeo? Se se lembra, deve também lembrar das minhas ideias. Se um dia (como tanto espero e desejo) voltar a Portugal hei de tratar de as pôr em pratica.- Pelo que sei tudo ahi está o peor possível; permitta Deus que se possa endireitar. Meu querido José escreva-me sempre que puder, mas escreva-me cartas comprodas – à sua vontade. Desabafe comigo; eu não sou do “livre pensamento” .Dê-me notícia de tudo que souber sorbetudo da Productora: e da tropa !!!

    MinhaMãe e todos mandam-lhe mil lembranças. Peço-lhe para dar muitos recados a todos os seus e aos amigos que vir.

    Aceite meu bom e querido José com saudade e ternura um grande abraço d’este seu sincero e dedicado amigo.

    Manuel

3 Comentários (+adicionar o seu?)

  1. Zé Pikeno!
    Ago 27, 2008 @ 23:26:00

    Esta gente que por cá ainda anda…não mereceu e continua a não merecer…a inveja não o permite.
    Eu adoro ler sobre D.Manuel e D.Carlos…uns verdadeiros SENHORES E PATRIOTAS que bem tentaram ajudar este nosso rectangulo.
    Abraço e continue.

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