Se a Monarquia é sinónimo de ditadura … a República é bem pior !

Para quem ainda confunde Monarquia com ditadura, ou “coisa” parecida que reduz as “liberdades individuais”:
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Panfleto inglês que circulou em Portugal durante a II guerra mundial (lamento mas não tenho o resto)…imagem é maior, clicar para ver o lado direito

Parece que até os ingleses sabiam onde parava a chuva em questões regimentais.
No entanto até aposto que naquela altura muitos “fiéis à I república” até votariam no fulano do bigode para não darem “o braço a torcer” e admitir o que é mais do que óbvio

Monarquia não tem nada a ver com “Direita” ou “Esquerda”…é democrática

bem haja

monarquia : Portugal: 90 anos sobre a monarquia do norte 1919

A Monarquia, ao contrário do que possivelmente muitos julgam saber, não acabou em 5 de Outubro de 1910 com a conquista do Estado pelo Partido Republicano e o exílio do rei D. Manuel II e da família real. Em 1919, a 19 de Janeiro, um domingo, pela uma da tarde, voltou a haver Monarquia em Portugal. Não em todo o País, mas no Porto e, a partir daí, por quase todo o Norte do País. A restauração, também tentada em Lisboa, a 22 de Janeiro, falhou no Sul. A Monarquia de 1919 ficou assim a ser a ‘Monarquia do Norte’, existindo acima de Aveiro e Viseu, uma espécie de ressurreição tardia do original Condado Portucalense.

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Em 1910, muita gente dispusera-se a aceitar a República, na suposição de que seria um regime liberal e pluralista. Mas a República, entre 1910 e 1917, não foi isso. Consistiu antes no domínio do Estado por um partido, o PRP de Afonso Costa, com uma orientação de esquerda revolucionária.

(22 de Janeiro de 2009)

Não, a Monarquia não acabou a 5 de Outubro de 1910.

Não se pode dizer que o rei tenha voltado, mas os que o queriam de volta reinaram entre 19 de Janeiro e 13 de Fevereiro de 1919 – no Norte.
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Fotografia do documento da proclamação da Monarquia do Norte, redigido por Paiva Couceiro, de 19 de Janeiro de 1919. Com nota manuscrita no documento: “Foi este exemplar da Proclamação que, por ordem de Paiva Couceiro lá ás tropas da guarnição do Porto por ocasião da formatura do Monte Pedral, em que foi restaurada a monarchia. Saturio Paes”. No verso: “ABC. 355″

(Documentos Carvalhão Duarte)

Em Lisboa e no Sul, a revolta liderada por Paiva Couceiro não vingou. Passam agora noventa anos sobre o episódio da Monarquia do Norte, que primou pelo caricato – tal como os republicanos, os monárquicos não se entendiam entre si. Mesmo doente, com gripe, o capitão Sarmento Pimentel acabou por restaurar a República

A Monarquia, ao contrário do que possivelmente muitos julgam saber, não acabou em 5 de Outubro de 1910 com a conquista do Estado pelo Partido Republicano e o exílio do rei D. Manuel II e da família real. Em 1919, a 19 de Janeiro, um domingo, pela uma da tarde, voltou a haver Monarquia em Portugal. Não em todo o País, mas no Porto e, a partir daí, por quase todo o Norte do País. A restauração, também tentada em Lisboa, a 22 de Janeiro, falhou no Sul. A Monarquia de 1919 ficou assim a ser a ‘Monarquia do Norte’, existindo acima de Aveiro e Viseu, uma espécie de ressurreição tardia do original Condado Portucalense.

Na Europa, a I Guerra Mundial acabara havia dois meses e começava a conferência de paz de Versalhes. A situação do País era tremenda. Faltavam abastecimentos, o Estado estava arruinado, corriam muitos boatos, e a epidemia de gripe matava milhares de pessoas.

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Paiva Couceiro

No Porto estabeleceu-se uma Junta Governativa do Reino de Portugal, presidida pelo célebre capitão Henrique da Paiva Couceiro.
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Por quase todo o Minho e Trás-os-Montes voltou a haver bandeiras azuis-e-brancas. A Junta do Porto restaurou a antiga moeda (o real, através de carimbo nas notas de escudo em circulação), e a Guarda Nacional Republicana foi baptizada Guarda Real. Mas o rei não regressou a Portugal e o fracasso da restauração em Lisboa desanimou muita gente. Tudo acabou a 13 de Fevereiro, precisamente onde começara: no Porto, com um contra-golpe militar.
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Depois do fracasso de dois regimes. A Monarquia de 1919 resultou do fracasso dos dois regimes políticos que a antecederam:

-o do Partido Republicano Português (PRP) de Afonso Costa, até 1917,
-e o de Sidónio Pais, entre 1917 e 1918.

Em 1910, muita gente dispusera-se a aceitar a República, na suposição de que seria um regime liberal e pluralista. Mas a República, entre 1910 e 1917, não foi isso. Consistiu antes no domínio do Estado por um partido, o PRP de Afonso Costa, com uma orientação de esquerda revolucionária. Decidido a usufruir do poder em exclusivo, o PRP perseguiu e oprimiu todos os que se lhe opunham, desde os católicos aos sindicatos anarquistas, passando pelos republicanos mais liberais ou conservadores. Os jornais da oposição eram regularmente assaltados e destruídos e houve sempre milhares de presos políticos e exilados.
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Em Dezembro de 1917, o major Sidónio Pais dirigiu um golpe militar que derrubou o governo do PRP. Quis manter a República, mas aberta a todos os que tinham sido excluídos e reprimidos pelo PRP: republicanos conservadores, monárquicos, católicos. Mas só Sidónio, com o seu carisma, dava uma aparência de solidez à ‘República nova’. Quando foi assassinado, a 14 de Dezembro de 1918, tudo se desfez. Os vários grupos políticos dispuseram-se a recorrer à força para predominar. A 10 de Janeiro, o PRP e outros republicanos tentaram um golpe armado em Lisboa e em Santarém. A 19, foi a vez dos militares monárquicos do Porto. O governo sidonista tentou jogar uns contra os outros: a 10, pediu ajuda aos monárquicos contra o PRP; a 19, ao PRP contra os monárquicos.

Uma causa dividida e hesitante.

O caos político no mês de Janeiro de 1919 atingiu níveis fantásticos. A divisão política em Portugal não passava simplesmente por uma oposição entre republicanos e monárquicos. Cada um desses campos estava dividido entre si por divergências e ressentimentos por vezes mais profundos do que aqueles que os separavam do campo contrário.

À chamada Causa Monárquica, por exemplo, não correspondia nesta época uma organização partidária com um comando único, nem sequer uma convergência em termos de estratégia e ideologia.

Paiva Couceiro, que chefiou o golpe no Porto em 1919, era pela restauração da Monarquia através de um golpe militar. Mas o rei D. Manuel e o seu lugar-tenente em Portugal, Aires de Ornelas, preferiam colaborar com uma República conservadora, uma espécie de ‘República governada por monárquicos’, como tinha sido o regime de Sidónio, donde no futuro resultasse a restauração de um modo consensual. Mas os monárquicos também não concordavam acerca da Monarquia a restaurar: a Monarquia constitucional de 1910, ou uma ‘Monarquia nova’, de acordo com o programa autocrático do chamado Integralismo Lusitano?

O que aconteceu em Janeiro de 1919 percebe-se melhor tendo presente esta fragmentação. Para Paiva Couceiro, ’se não for agora, não é nunca’. Vestiu um velho uniforme de gala e apareceu a cavalo no Porto. Em Lisboa, Aires de Ornelas, fleumático onde o outro era impetuoso, ainda esperou um compromisso com os republicanos. Por isso concentrou as forças militares sob o seu comando – cerca de 900 soldados e uns 300 civis armados – em Monsanto, numa atitude defensiva. Quando lhe falavam de Couceiro, respondia: ‘Nós não podemos ter nada de comum com essa gente.’

Em Lisboa, a movimentação militar monárquica acabou a 24 de Janeiro, depois de dois dias de combates. Tal como D. Manuel temia, a perspectiva da restauração monárquica serviu para o PRP, em nome da unidade dos republicanos para a defesa da República, voltar ao governo, que logo monopolizou. No Norte, que era cultural e politicamente muito diferente do Sul, o ambiente era mais favorável à Monarquia. Muitos padres e fiéis, revoltados pelas perseguições do PRP à igreja, apostaram na restauração. Houve quem, ao princípio, tivesse previsto uma guerra civil de quatro anos. Mas Couceiro tinha pouca tropa e dificuldades logísticas. O governo de Lisboa dominava o mar, impedindo abastecimentos. A Junta do Porto não conseguiu que a Espanha a reconhecesse e, muito menos, ajudasse. A derrota em Lisboa, a 24, teve um efeito desmoralizador, tal como alguns combates mal sucedidos.

Os restauradores também foram confrontados com uma certa naturalização das instituições e símbolos republicanos. Um episódio, contado pelo escritor Campos Lima no seu ‘Reino da Traulitânia’, é significativo. Alguém se lembrou de estender a bandeira vermelha e verde da República na entrada do edifício central dos correios do Porto, para ser pisada pelos utentes ao entrar. Tiveram de desistir, quando constataram que o público evitava entrar nos correios. Afinal, aquela era a bandeira que Portugal tivera durante a guerra.

A 13 de Fevereiro, a Monarquia acabou como começara: por um golpe militar no Porto. O seu chefe foi o capitão João Sarmento Pimentel. Apesar de doente com gripe, aproveitou a saída de Couceiro e da maioria das tropas para restaurar a República à frente da Guarda Real, que voltou a ser a Guarda Republicana. A 19 de Fevereiro, os últimos combatentes da Monarquia deixaram Trás-os-Montes em direcção à Galiza. No total, os confrontos militares entre Janeiro e Fevereiro terão provocado uns 150 mortos.

Uma alternativa dentro da república. Os republicanos vencedores tentaram arranjar uma má fama à ‘Monarquia do Norte’, explorando as violências que alguns militantes monárquicos exerceram sobre presos republicanos no Éden Teatro. Daí o nome que lhe deram de ‘reino da Traulitânia’. Nada, de resto, se comparou às brutalidades das massas do PRP em Lisboa. Um caso particularmente repugnante foi o linchamento do monárquico Jorge Camacho, a 7 de Fevereiro, no Terreiro do Paço, quando chegava à capital sob prisão.

Mas foram sobretudo os próprios monárquicos quem se encarregou de deprimir a aventura do Porto. D. Manuel referiu-se depois à iniciativa de Couceiro como um ‘crime’, cometido contra as suas instruções.

Uma parte dos monárquicos, como os do chamado Integralismo Lusitano, acabaram por romper com o rei, ligando-se à linha miguelista. Deixou de se perceber o que poderia ser a Monarquia, se fosse restaurada. Em 1924, o escritor Armando Boaventura publicou um livro humorístico com o título de ‘Sem Rei nem Roque’, em que imaginava o que seria a restauração da ‘monarchia com ch’: haveria um ‘concurso’ para escolher um rei, com pelo menos 2000 candidatos. Os políticos católicos inspirados pela hierarquia da Igreja começaram a afastar-se da Causa Monárquica.

O grande resultado de 1919 foi a prova de que a Monarquia não conseguia ser alternativa. O que não quer dizer que não fosse necessária uma alternativa. Porque a República que veio em 1919, não trazendo os mesmos chefes (Afonso Costa não regressou do exílio), fez regressar o pior da anterior experiência de domínio do PRP. Mas a alternativa iria ser encontrada dentro da forma republicana de regime, segundo o modelo sidonista. Seria o Estado Novo, que deixou de fora os principais combatentes de 1919, de um lado e do outro. Em 1939, vinte anos depois, Paiva Couceiro, o restaurador da Monarquia, e Sarmento Pimentel, o restaurador da República, estavam ambos exilados por Salazar.

HENRIQUE PAIVA COUCEIRO

O capitão Paiva Couceiro foi o presidente da Junta que restaurou a Monarquia no Porto a 19 de Janeiro de 1919. Alto, magro, louro, arrebatado, era uma figura quixotesca. Alguns chamavam-lhe o ‘novo Nuno Álvares Pereira’. Nascido em 1861, tinha sido um herói das guerras de ocupação de Moçambique no fim do século XIX e governador geral de Angola entre 1907 e 1909. Muito crítico dos governos da Monarquia, foi no entanto o único a combater os republicanos em Lisboa, durante a revolução dos dias 4-5 de Outubro de 1910. A República quis comprá-lo. Ele recusou e partiu para o exílio. A partir da Galiza, chefiou duas incursões armadas, em 1911 e 1912, para tentar uma restauração da Monarquia. Couceiro nunca se deu bem com nenhum partido ou regime político. O rei D. Manuel achava-o demasiado desalinhado e irresponsável. Combatente contra a República de 1910-1926, veio também a ser inimigo do Estado Novo de 1933, desse regime em que ‘vela a polícia e o lápis da censura’, como disse em 1937 numa carta a Salazar, que por isso o mandou prender e deportar para Espanha. Tinha então 76 anos. Morreu em 1944.

Fonte : Somos Portugueses

Sessão Solene de Encerramento do Centenário da morte do Rei D. Carlos, organizada pela Comissão D. Carlos 100 anos.

No próximo dia 27 de Janeiro, pelas _18_h_30_, realiza-se, na Universidade Católica em Lisboa (Grande Auditório da Biblioteca João Paulo II), a Sessão Solene de Encerramento do Centenário da morte do Rei D. Carlos, organizada pela Comissão D. Carlos 100 anos.

Esta Sessão, que contará com a presença de SS.AA.RR, terá como conferencista o antigo Presidente do Parlamento Europeu D. José Maria Gil-Robles que falará sobre a «A Monarquia Constitucional na Europa de hoje». Ao longo do dia e associado a este evento, terá lugar, no mesmo local o Colóquio da Universidade Católica Portuguesa, subordinado ao tema O Rei D. Carlos e a Monarquia Constitucional, consulte o programa em anexo.

Entrada livre.

Mais informações aqui http://www.dcarlos100anos.pt/

Melhores cumprimentos

a "obra social " da I República

Conforme se avança pela terceira década do século XX, o apelo á caridade e solidariedade particulares vai-se tornando mais insistente, ao mesmo tempo que se evidenciam os erros e lacunas da acção providente do Estado republicano, que não conseguira fazer face aos múltiplos problemas relacionados com a obra de Assistência Social assumida pela I República em Portugal.

Em 1922 a ocupação dos «…pequenitos que revolvem os barris de lixo em procura de alguns restos para comer. (…)», como se afirma no Século, acrescentando-se ainda: «Há crianças que tomaram como profissão rebuscar no entulho do Aterro qualquer trapo, para aproveitar como agasalho, ou migalha de comer, para se enganarem, como alimento!» (1922- O Século de 11/02/1922)

José de Castro (maçon e ilustre republicano, desde 1881), que era de opinião que essa multidão de crianças rotas «… quase nuas algumas, fumando… apresentam ares grosseiros e agressivos, não de crianças mas de bandidos…» (17/3/1922, O Século).

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«É PRECISO LIMPAR LISBOA»

Gostaríamos de realçar a ideia de que os indigentes constituíam de facto uma categoría social diferente, quer pelo seu perfil físico e psicológico quer pela sua conduta na vivência do quotidiano lisboeta.
A rua era o meio a que pertenciam muitos desses individuos, que viviam da mendicidade ou de expedientes que, mais tarde ou mais cedo, Ihes custava a liberdade tão apreciada.
Alguns, porém, ansiavam a protecção do Estado, que lhes era facultada através do internamento nos estabelecimentos de assistência ou da atribuicão de outro tipo de ajuda de carácter mais provisório, como as esmolas, os bodos e outras prestações em géneros, provenientes quer de pessoas individuais quer de organismos e instituições particulares e oficiais.
Conforme se avança pela terceira década do século XX, o apelo á caridade e solidariedade particulares vai-se tornando mais insistente, ao mesmo tempo que se evidenciam os erros e lacunas da acção providente do Estado republicano, que não conseguirá fazer face aos múltiplos problemas relacionados com a obra de Assistência Social assumida pela I República em Portugal.

Entretanto, as ruas da capital continuam enxameadas de mendigos, como nos faz crer a noticia divulgada pelo Século em 1 de Abril de 1931: «Vagueiam, teimosos como as vespas persistentes como os moscardos, impertinentes como os mais insaciáveis parásitas, pelas suas rúas e praças principais, os pedintes de profissão (…). Toda a rua do Ouro, a rúa Augusta, o Rossio, o Chiado e as artérias principais da cidade e do comercio e das elegâncias nao passam de constantes exposições de chagas, de pústulas, de trapos, de gangrenas (…), de braços podres…»

O «RETRATO» DO INDIGENTE E DO SEU MEIO

Os rostos das crianças e das mulheres sao adjectivados de magros, pálidos e macilentos, além de sujos e «ranhosos», no caso das crianças. Outros epítetos usados para os menores vadios eram; «chagados», «mazelentos», «maltrapilhos e descalços», consideravam-nos, aínda, «farrapos humanos», que nada tinham de alma, so instintos «…de pequenas feras», «bárbaros», «aves de rapina» (1922-O Século 15/5/1922)]
Os homens apresentavam-se com grandes barbas, mal cuidadas, sujas e reflectindo o desmazelo próprio de quem tem outras preocupações prioritarias.
No vestuario — que muitas vezes nao passava de um monte de andrajos — destacam-se algumas peças susceptíveis de distinguir os dois sexos: o gibáo, ou o velho capote militar que alguns homens envergavam, e o xaile de tons escuros com que se cobrem as mulheres, servindo por vezes também de cobertor aos filhos que se aninhavam junto às mães para se protegerem dos rigores do clima.

(…) Em casos mais extremos, e sobretudo na intimidade das suas áreas residenciáis — nos becos e nos patios — as enancas podiam ser vistas semi-nuas, numa promiscuidade com a térra e a lama que ladeavam as suas casas.

Outra situação que chocava o olhar do observador comum era a ocupação dos «…pequenitos que revolvem os barris de lixo em procura de alguns restos para comer. (…)», como se afirma no Século, acrescentando-se ainda: «Há crianças que tomaram como profissão rebuscar no entulho do Aterro qualquer trapo, para aproveitar como agasalho, ou migalha de comer, para se enganarem, como alimento!» (1922- O Século de 11/02/1922)

A “Batalha” (já referida no blogue) publicou alguns artigos sob o título genérico «O paraizo Burgués», que denunciavam certos casos de miséria mais flagrantes, como a
que se vivia no Casal Ventoso, povoado de gente com «(…) rostos escaveirados, expressóes bestializadas, encardidas nas intempéries ocultas, sob uma camada viscosa de imundície. Tudo neles é negro. (…) Marcham como sapos, deslizando acocorados, hábito que lhes ficou da continua existência de toupeiras agachadas sobre o lixo ou curvadas para deslizarem dentro das suas barracas de tectos baixos como tocas (…)» (1925-A Batalha 25/3/1925).

Mas nem todos os observadores têm uma apreciação tão benevolente dessa miséria exposta e atrevida. O Século publica um depoimento de uma figura política, antigo ministro da Marinha, José de Castro (maçon e ilustre republicano, desde 1881), que era de opinião que essa multidão de crianças rotas «… quase nuas algumas, fumando… apresentam ares grosseiros e agressivos, não de crianças mas de bandidos…» (17/3/1922, O Século).

As suas atitudes de irreverência eram mal entendidas pela autoridade policial que marcava e perseguia esses miúdos vadios, que se divertiam a «tourear um polícia», conforme a gíria da época.
As observações a que foram sujeitos os menores que passaram pela Tutoria da Infância permitiram-nos destacar algumas características mais comuns nestas crianças, como sejam a instabilidade, a insubmissão, a indisciplina e um comportamento profundamente marcado por automatismos herdados da sua experiência de vida da rua.

A revista deste instituto de assistência aos menores (Abril de 1915) vai mais longe, apontando como «qualidades peculiares do vadio» ser dissimulado, reservado, instável e por vezes adulador.
Os velhos, pelo contrário, carregavam tristeza no seu olhar, deixando transparecer o peso da humilhação a que se sentiam sujeitos, o que contribuía para lhes dar uma aparência soturna.

A determinação do Estado Novo em combater a mendicidade que ameaçava a tranquilidade e ordem públicas ficou desde logo expressa no editorial de Janeiro de 1931 do Boletim do Governo Civil, que anunciava inequivocamente: «É preciso limpar Lisboa.» (2O sangue e a rua. Elementos para uma antropologia da violência em Portugal (1926-1946),p. 209, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1989)

Em jeito de conclusão, registámos que, ao longo de todo o período estudado, a política de repressão da mendicidade teve um destaque igual, ou mesmo superior, ao da assistência social facultada aos indigentes. Este facto induz uma questão, que julgamos pertinente deixar como remate da matéria exposta:
— As medidas tomadas pelos governos vigentes durante o 1.° terço do século XX teriam sido as mais correctas e indicadas para sanar esse mal, que já era vulgarmente designado por«cancro social»?

Maria Fátima M. Pinto, Mestra em Historia do séc. XX/FCSH/Univ. Nova de Lisboa

A "escola ideal " da República

Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Porque razão subiu a taxa de iliteracia (ou analfabetismo) em Portugal durante a I República, de 60,3% para 66,2% em 1920?

uma imagem pode responder a este facto sem qualquer comentário:

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(ilustração Portugueza de 4/3/1918)
imagem de 1918

para os mais distraido…a escola é ao “ar livre” o que significa que não passa de pura propaganda politica, poís nenhum mobiliário ou escola é sustentável à chuva ou sem tecto.

Aliás ainda hoje a “Republica Democrática” tem problemas com a Educação ,onde a eterna burocracia empana todas as velências do sistema e perverte os objectivos principais da Escola Pública..não tarda muito e a “escola ideal” da I República volta com os alunos á chuva a cantar o “somos livres”, numa eterna demagogia ciclica que tenta culpabilizar o próprio sistema educativo pelas falhas constantes do poder politico.

bem haja

Monárquicos ponderam lista às eleições para o PE

Fontes próximas de várias organizações monárquicas, que pediram anonimato, confirmaram ao Portal Lisboa que existem neste momento “várias movimentações com vista à apresentação de uma lista exclusivamente de monárquicos ao Parlamento Europeu”. No entanto, ao que parece, há um problema, relacionado com o facto de não poderem existir listas independentes ao Parlamento Europeu, pelo que esta lista teria que contar com o apoio de pelo menos um partido político legalizado perante o Tribunal Constitucional. Ao que a redacção do Portal Lisboa conseguiu apurar, várias personalidades ligadas ao movimento monárquico estão já a negociar com algumas forças partidárias a viabilização desta lista.

Este assunto parece estar a criar alguma celeuma dentro dos próprios aparelhos partidários dos grandes partidos, visto que importantes nomes do Partido Socialista, do Partido Social Democrata e do CDS / Partido Popular, parecem estar por trás desta candidatura, que ao que confirmou fonte próxima do movimento monárquico ao Portal Lisboa, novamente em anonimato, “está já a reunir a simpatia não só de vários políticos do centro esquerda até à direita conservadora, mas também de várias personalidades ligadas ao mundo académico, à cultura e ao espectáculo”. Outro problema que levou este grupo de monárquicos a ainda não ter avançado com esta candidatura, parece ser não terem chegado ainda a um consenso sobre o cabeça de lista, embora o perfil seja já avançado como “uma enorme surpresa, uma pessoa bem conhecida dos portugueses e muito ligada à vida cívica, embora com pouca participação política ao nível partidário”.

Numa altura em que os dois maiores partidos (PS e PSD) ainda não apresentaram os seus cabeças de lista ao Parlamento Europeu, este novo dado pode vir baralhar as contas de José Sócrates e Manuela Ferreira Leite. O Portal Lisboa lembra que já na década de oitenta, o jornalista Miguel Esteves Cardoso avançou, pelo Partido Popular Monárquico, como cabeça de lista ao Parlamento Europeu, acompanhado de nomes como o histórico do partido Luís Coimbra, ficando por duas vezes a poucos votos de conseguir a eleição. No entanto, a avançar esta lista, o leque de partidos que a apoiam deve ser maior e nas palavras de uma das fontes próximas de uma conhecida organização monárquica “será uma lista politicamente heterogénea, que promete roubar votos a todos os partidos, apresentando um programa de actuação sólido, sobre o pretexto de lançar uma nova discussão em torno do ideal monárquico”.

Fonte : Portal de Lisboa

A Guerra de Gaza .. ou a Guerra da Água

A água (que ninguém vê) na guerra
Por Ana Echevenguá

“Para além das manchetes do conflito do Oriente Médio, há uma batalha
pelo controle dos limitados recursos hídricos na região. Embora a
disputa entre Israel e seus vizinhos se concentre no modelo terra por
paz, ”há uma realidade histórica de guerras pela água” – tensões
sobre as fontes do Rio Jordão, localizadas nas Colinas de Golã,
precederam a Guerra dos Seis Dias”. Raymond Dwek – The Guardian,
[24/NOV/2002] *

A nossa sobrevivência na Terra está ameaçada. Sem alimento, o ser
humano resiste até 40 dias; sem água, morre em 3 dias. Somos água!
Mas, enquanto a população se multiplica e a poluição recrudesce, as
fontes de água desaparecem.

Na guerra do momento – Israel em Gaza -, por que a mídia não fala
sobre a água – um dos itens mais importantes dos conflitos no Oriente
Médio?

Oriente Médio… uma região aonde água vale mais do que petróleo… E
sempre nos passam a idéia de que lá as guerras ocorrem pela conquista
das reservas de petróleo.

E a conquista das reservas de água? Em 1997, o então vice-diretor
geral da UNESCO, Adnan Badran, no seminário “Águas transfronteiriças:
fonte de paz e guerra” (que centrou os debates nas águas do Mar Aral,
do rio Jordão, do Nilo…) disse que “a água substituirá o petróleo
como principal fonte de conflitos no mundo”.

Embora Israel tenha sérios problemas com recursos hídricos, detém o
controle dos suprimentos de água, tanto seus como da Palestina.

Além de restringir o uso d’água, luta pela expansão do seu território
para obter mais acesso e controle deste recurso natural. Ali, ele é o
“dono” das:

- águas superficiais: bacia do rio Jordão (incluindo o alto Jordão e
seus tributários), o mar da Galiléia, o rio Yarmuk e o baixo Jordão;

- águas subterrâneas: 2 grandes sistemas de aqüíferos: o aqüífero da
Montanha (totalmente sob o solo da Cisjordânia, com uma pequena porção
sob o Estado de Israel), aqüífero de Basin e o aqüífero Costeiro que
se estende por quase toda faixa litorânea israelense até Gaza.

Tais águas são ‘transfronteiriças’, recursos naturais compartilhados.
Segundo recente inventário da UNESCO, 96% das reservas de água doce
mundiais estão em aqüíferos subterrâneos, compartilhados por pelo
menos dois países.

Há regras internacionais para o uso dessas águas. Algumas destas
obrigam Israel a fornecer água potável aos palestinos.

Mas Israel não compartilha a água; afinal, tais regras internacionais
não prevêem mecanismos de coação ou coerção; é letra morta. O Tribunal
Internacional de Justiça, até hoje, condenou apenas um caso
relacionado com águas internacionais.

A estratégia de Israel é outra. Em 1990, o jornal Jerusalém Post
publicou que “é difícil conceber qualquer solução política consistente
com a sobrevivência de Israel que não envolva o completo e contínuo
controle israelense da água e do sistema de esgotos, e da
infra-estrutura associada, incluindo a distribuição, a rede de
estradas, essencial para sua operação, manutenção e acessibilidade”**.
Palavras do ministro da agricultura israelense sobre a necessidade de
Israel controlar o uso dos recursos hídricos da Cisjordânia através da
ocupação daquele território.

O Acordo de Paz de Oslo de 1993, por exemplo, estipulou que os
palestinos deveriam ter mais controle e acesso à água da região.

Nessa época, segundo o professor da Hebrew University, Haim Gvirtzman,
dos 600 milhões de metros cúbicos de água retirados anualmente de
fontes na Judéia e Samaria, os israelenses usavam quase 500 milhões,
satisfazendo cerca de um terço de suas necessidades hídricas. Para
ele, isso gerou um ‘direito adquirido sobre a água’. Questionado sobre
o acesso palestino à água, o professor respondeu que “Israel deve
somente se preocupar com um padrão mínimo de vida palestino, nada
mais, o que significa suprimento de água para eles só para as
necessidades urbanas. Isso chega a cerca de cinqüenta/cem milhões de
metros cúbicos por ano. Israel é capaz de suportar essa perda.
Portanto, não deveríamos permitir que os palestinos desenvolvessem
qualquer atividade agrícola, porque tal desenvolvimento virá em
prejuízo de Israel. Certamente, nunca permitiremos aos palestinos
suprir as necessidades hídricas da Faixa de Gaza por meio do aqüífero
montanhoso. Se purificar a água do mar é uma solução realista, então
deixemos que o façam para as necessidades dos residentes da Faixa de
Gaza”**.

E na Guerra pela Água vale tudo: os israelenses bombardeiam tanques
d’água, grandes ou pequenos (muitas vezes construídos nos telhados das
casas), confiscam as bombas d’água, destroem poços, proíbem que
explorem novos poços e novas fontes d’água (a Cisjordânia, em 2003,
contava com cerca de 250 fontes ilegais e a Faixa de Gaza, com mais de
2 mil). Israel irriga 50% das terras cultivadas, mas a agricultura na
Palestina exige prévia autorização.

Então, furto de água das adutoras de Israel é comum naquela região.

A regra do jogo é esta: enquanto o palestino não tem acesso à água
para beber, o israelense acostumou-se ao seu uso irrestrito.

Sendo assim, dá pra imaginar uma outra forma de divisão ou de uso
compartilhado desses recursos hídricos para os próximos anos? Dá pra
imaginar a sobrevivência de qualquer estado e, nesse caso, da
Palestina sem o controle efetivo do acesso e da distribuição dos
recursos hídricos que necessita?

Botar a mão na água é coisa antiga. Britânicos e franceses no Oriente
Médio definiram as fronteiras (em especial da Palestina) de olho nas
águas da bacia do rio Jordão.

Desde 1948, Israel prioriza projetos, inclusive bélicos, para garantir
o controle de água na região. Dentre estes:

- a construção do Aqueduto Nacional (National Water Carrier);

- em 1967, anexou os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia e
tomou da Síria as Colinas do Golã, ricos em fontes de água, para
controlar os afluentes do Rio Jordão. Sobre esta guerra, Ariel Sharon
falou que a idéia surgiu em 1964, quando Israel decidiu controlar o
suprimento d’água;

- em 2002, a construção o ‘muro de segurança’ viabilizou o controle
israelense da quase totalidade do aqüífero de Basin, um dos três
maiores da Cisjordânia, que fornece 362 milhões de metros cúbicos de
água por ano. Segundo Noam Chomsky, “o Muro já abarcou algumas das
terras mais férteis do lado oriental. E, o que é crucial, estende o
controle de Israel sobre recursos hídrico críticos, dos quais Israel e
seus assentados podem apropriar-se como bem entenderem…”***. Antes
do muro, ele já fornecia metade da água para os assentamentos
israelenses. Com a destruição de 996 quilômetros de tubulação de água,
agora falta água para beber à população palestina do entorno do muro;

- antes de devolver (simbolicamente) a Faixa de Gaza, Israel destruiu
os recursos hídricos da região. E, até hoje, não há infra-estrutura
hídrica nas regiões palestinas.

Quantos falam a respeito disso?

Em 2003, na 3ª Conferência Mundial sobre Água, em Kyoto, Mikhail
Gorbachev bateu na tecla dos conflitos mundiais pela água:
contabilizou, na época, 21 conflitos armados objetiva apropriação de
mais fontes de água; destes, 18 ocorreram em Israel.

Gestão conjunta, consumo igualitário de água, ética e consenso na água
- palavras bonitas no papel, nas mesas de negociação, na mídia. Na
prática, é utopia.

O que a ONU e os donos do planeta estão esperando para exigir que
Israel cumpra as regras internacionais sobre águas mesmo que estas
contidas em convenções, acordos, declarações (e outras abobrinhas)?

Quem vai ter coragem de criar regras claras e objetivas para punir a
violação dos direitos dos povos e nações à sua soberania sobre seus
recursos e riquezas naturais?

* – http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/internacional/2002/11/23/jorint20021123004.html

** – Do livro de Noam Chomsky: Novas e Velhas Ordens Mundiais, São
Paulo, Ed. Scritta, 1996.

*** – http://www.galizacig.com/actualidade/200403/portoalegre2003_muro_humilhacao_e_roubo.htm

Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa
Eco&Ação, presidente da ong Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre
das Águas, e-mail:ana@ecoeacao.com.br, website: www.ecoeacao.com.br

Vamos salvar os ricos !

PESADELO CHINÊS — um blog proibido na China


Assunto: PESADELO CHINÊS — um blog proibido na China — fatos e
comentários que não saem nos jornais — Perseguição ao catolicismo

PESADELO CHINÊS — um blog proibido na China — fatos e comentários que
não saem nos jornais — Perseguição ao catolicismo

Artificialidade econômica da China leva o país à beira do desastre

Posted: 09 Jan 2009 08:36 AM CST

Nas docas chinesas empilham-se os contêineres, pois os navios só levam
a metade da carga.

No centro industrial de Guandgong, as fábricas dispensam os
ex-empregados inescrupulosamente ‒ melhor diríamos, de modo socialista
‒ sem nenhuma compensação.

Em províncias como Sichuan as autoridades não têm meios para empregar
milhões de trabalhadores sem destino. O quadro foi descrito pelo “New
York Times”.

A indústria chinesa está exibindo toda sua fraqueza e artificialidade.

Os líderes marxistas viam nela um instrumento para fazer da China uma
superpotência que acabaria acalcando Ocidente.

Os investidores ocidentais queriam produtos baratos para ganhar cotas
mercado nos EUA, Europa e alhures.

Nem uns nem outros parecem estar ganhando com a crise. Antes bem, as
perdas se anunciam vertiginosas de um lado e de outro.

Os varejistas não pagam nos prazos costumeiros, os fornecedores fecham
fábricas, os varejistas duvidam dos exportadores, estes não embarcam
as mercadorias e os bancos desconfiam de todos e não financiam as
operações.

“O financiamento do comércio está em colapso”, disse Victor K. Fung,
presidente do Li & Fung Group, que liga fábricas na China e varejistas
nos Estados Unidos e Europa.

Para Fung 10 mil das 60 mil fábricas na China de propriedade de
empresas de Hong Kong, fecharam ou serão fechadas nos próximos meses.
O número porém, pode ser ainda mais alto e não apenas empresas de Hong
Kong.

As exportações contabilizadas em moeda chinesa caíram de 11,4% em
relação ao ano passado. Os fabricantes de eletrônicos são os mais
atingidos. “Ninguém tem mais dinheiro”, se queixa Lion Yuan, da
Schenzen Yidahi Electronics, cujas exportações perderam 30% em 2008.

O governo, obviamente, anunciou programas de incentivo. Mas tudo
depende de Obama cumprir suas promessas, especialmente na área têxtil.
Curiosa situação. Para sobreviver o carrasco depende de a vítima lhe
dar o instrumento com que pretende estrangulá-la.

Fala-se que a China desviaría sua imensa capacidade de produção ociosa
para alimentar o mercado interno.

Ledo engano. O governo não pode permitir o enriquecimento da população
escrava sob pena de o consumismo, mais cedo ou mais tarde, estimular
uma insurreição geral contra o miserabilismo e a ditadura asfixiante
comunista.

O governo amassou imensas reservas de dinheiro. Elas não serão
engajadas para aliviar a desgraça popular. Elas são uma arma que
espera para ser usada contra a fragilizada economia ocidental.

É uma arma a ser acionada no momento certo com critérios ideológicos
de hegemonia mundial.

A sorte do povo não interessa aos continuadores de Mao Ze Dong. 300
milhões de cadáveres chineses (ver coluna ao lado) eram para o mestre
da nova China um preço atrativo para adquirir o domínio marxista
universal…

REPORTAGEM : Acidente no Comboio do Tua

Acidente no Comboio do Tua

.
Accident at the Tua Line
The Portuguese rail company – CP – is maintaining the line and ensure passengers safety?
.
O que a CP não vê

Faz hoje dois meses que, por milagre, a minha mulher e eu não perdemos a vida no acidente ferroviário, ocorrido na Linha do Tua, às 10h35’ da manhã do dia 22 de Agosto de 2008.
Penso nos meus filhos e fico angustiado só de pensar no futuro incerto deles, trabalhando em regimes de contrato a prazo e de recibos verdes, sem o sustento dos pais. Ficaram abalados com a notícia do acidente e que a mãe, em estado grave, tinha sido levada de urgência para o hospital de Vila Real. Sofrem com a dor dos pais. Ainda hoje recusam ver imagens que apenas eu vejo, como que para exorcizar o espectro da morte.

No momento em que o comboio descarrilou eu estava em pé, agarrado ao varão junto à porta de entrada da frente, a tirar fotografias à paisagem. A automotora, na recta da Brunheda, sem ter parado na estação, seguia em velocidade de cruzeiro, em direcção ao Douro, quando começou “aos saltinhos”, se inclinou para o lado esquerdo, contrário ao da ravina do rio, perdeu equilíbrio e, em poucos segundos, tombou para uma pequena inclinação de terreno ali existente, arrastando-se ainda mais um pouco, até parar, ficando imobilizada num muro de socalco e no declive de uma vala de escoar a água das enxurradas, por baixo da via-férrea.

Imediatamente a seguir ao embate ouvi gritos e vozes a procurar por familiares. Ao meu lado, um passageiro começou a partir os vidros da frente para podermos escapar. Agarrado ao varão, não fui projectado para o tecto da automotora como outros. O meu amigo foi a primeira pessoa a quem ajudei a levantar-se. Quando o vi caído no chão pensei o pior. Ele, a mulher e a filha tinham chegado de Lisboa, na véspera, a Vilas Boas. Era nossa intenção, depois da viagem de comboio ao Tua, visitarmos os lugares que a telenovela A Outra tornou conhecidos dos portugueses.

Refeito do susto, fui procurar a minha mulher. Ela viajava sentada, mais atrás; vinha, feliz, à conversa com a mulher do meu amigo. Chamei -a mas não me ouviu. Encontrei-a do lado de fora, junto ao muro de socalco, sem poder andar, testa e boca ensanguentadas, e osso frontal descarnado, à vista. Desviei o olhar e contive a emoção. Ajudado por um turista inglês e outro passageiro, levei-a para cima, até à via-férrea, por onde caminhamos alguns metros, até ficarmos afastados do comboio, em segurança. Diziam que havia perigo de explosão.

Ficamos na berma da via, ela deitada, com a cabeça apoiada no meu colo, à espera de socorro. Para estancar a sangria, uma senhora atou-lhe na cabeça uma cortina tirada da janela do comboio e a passageira inglesa deu-me uma garrafa de água para lhe lavar os lábios ensanguentados.

A assistência tardou a chegar.

Entre o acidente, ocorrido às 10h35’ e a chegada da equipa que a socorreu, às 11h38’, passaram-se 63 minutos; uma eternidade naquelas circunstâncias, que poderia ter sido fatal.

A demora na prestação de auxílio aos sinistrados deve-se fundamentalmente ao facto de os telemóveis, sem rede ao longo do vale, terem tardado a ligar para o 112.
O próprio maquinista teve de ir a pé até à estação da Brunheda, distante 1 km, pedir por socorro porque o comboio não estava equipado com meios técnicos de comunicação que, era suposto ter, no século XXI, um comboio a circular numa via-férrea onde recentemente tinham ocorrido três acidentes e provocado três mortos.

Como os técnicos do INEM não me deixaram seguir na ambulância, eu e outros passageiros que não ficaram feridos, fiquei na estação da Brunheda à espera que nos viessem retirar dali. O INEM deu-nos água e mediu-nos a tensão. A CP não deu a cara. Apareceu um presidente de câmara a prometer transporte em duas carrinhas de nove lugares mas até à hora de me vir embora, perto das 14 horas, não vi nenhuma.

Foi uma senhora, moradora numa casa junto à estação que, vendo a minha ansiedade, pediu ao filho para me levar ao Centro de Saúde da Carrazeda de Ansiães. Fui eu e o meu amigo. Ele ainda não sabia que a mulher tinha sido levada para o hospital de Mirandela.
Só no Centro de Saúde é que consegui ter rede e foi, lavado em lágrimas e soluços, como nunca imaginei, que dei a notícia à minha cunhada, médica, e à minha filha, ambas em Lisboa. No centro de saúde cobraram-me cinquenta cêntimos para chamar um táxi que me levasse à estação da Ribeirinha, onde havia ficado o carro, antes de inicio da viagem de comboio.

Acompanhei o meu amigo à urgência do hospital de Mirandela e depois segui pelo IP4 até ao hospital de Vila Real, debaixo de grande tensão. Pelo caminho, a minha cunhada ligou-me, acalmando-me, dando-me conta do estado de saúde da minha mulher e dos contactos que tinha tido com equipa médica que estava a tratar dela.

Alguns minutos depois de a ter reencontrado viva, num corredor do hospital, deitada numa maca, um médico enviado pela CP, aproximando-se de mim, perguntou-me se eu era o tal passageiro que nas declarações aos mass media, tinha dito pertencer ao Movimento Cívico pela Linha do Tua e que a direcção da CP devia ser julgada em tribunal pelos acidentes ocorridos. Indignado com a pergunta, confirmei ser o próprio. Sobranceiro, respondeu-me secamente que “-Era só para ter a certeza!”.
Dia 15 de Outubro, no centro médico da CP, em Lisboa, onde a minha mulher está a fazer fisioterapia e a ser acompanhada por uma psiquiatra e uma psicóloga, esse mesmo médico representante da CP, no estilo de quem não gosta de ouvir o que não está à espera que lhe respondam, ferindo o meu ego, deu-me ordem para sair do gabinete dele, como quem enxuta um cão, alegando impossibilidade de diálogo entre nós.

“-Olho para o espelho e vejo o meu olho deslocadoConversa telefónica com amiga, em 26-09-2008

Nas duas ou três vezes em que falámos ao telefone, chocou-me a sua sobranceria. Cada vez que, à boca cheia, me dizia que “A CP paga tudo!” e eu lhe manifestava a minha discordância e indignação, ele, exaltado, punha ponto final à conversa.

No dia do acidente, a minha mulher depois de ser vista no hospital de Vila Real, foi enviada numa ambulância para o hospital de Chaves, onde lhe deram alta. Deitada numa maca, sem poder andar, a pretexto, não sei de quê, foi enfiada por dois bombeiros no banco do nosso automóvel, para eu a conduzir até à aldeia, distante 25 km, e lá sujeitar-se ao esforço de subir os degraus da escada da casa.
No dia seguinte, porém, os noticiários minimizavam o acidente “-Já regressaram a casa os feridos internados …”.

Ninguém nos telefona a perguntar como estamos de saúde. O gabinete de Relações Públicas da CP só entrou em contacto comigo uma vez, quando a pressão dos meios de comunicação social era mais forte. Recebi cartas dos hospitais de Vila Real e de Chaves a pedir o pagamento das taxas moderadoras e o nome da companhia de seguros mas a CP, através do seu representante, mandou-me devolve-las, alegando que isso era da responsabilidade do metro de Mirandela.

A minha vida mudou muito depois do acidente ferroviário. Estava reformado de professor havia pouco tempo. Tinha ido de férias para a aldeia descansar de um ano lectivo desgastante; tencionava ler no escano da cozinha a biografia do rei Dom Carlos e, longe da turbulência do liceu por causa da divisão dos professores em titulares e tarefeiros, tinha planeado passear por Trás-os-Montes, Galiza, Astúrias, País Basco e Vale de la Loire. Após o acidente tive que dizer adeus às coquilles de Saint Jacques nas Rias Baixas, às minas de carvão do Bierzo …

Com a mulher deitada no escano passei eu, alem de motorista e enfermeiro, a ser doméstico a tempo inteiro. A primeira coisa que aprendi foi aperceber-me da necessidade de o ser humano, tal como os animais, procurar alimento para sobreviver. Passei a olhar o acto de comer não apenas como um acto de cultura em que, sentados à mesa, estabelecemos relações inter-pessoais. Aprendi que se tira a pele aos pimentos assados …

Cumprindo as instruções que ia recebendo lá me fui safando, entre suspiros e dores nos rins. Também cheguei à conclusão que não tenho muito jeito para cozinhar, faço tudo muito aldrabado, mesmo quando, com gosto, me predisponho a fazer doce de abóbora cultivada por mim. Há coisas simples de fazer mas mesmo nessas é preciso dominar a arte de as fazer bem. Quem diria, por exemplo, que as camisas devem ser estendidas com o colarinho virado para baixo? Fiz de tudo, só não passei a ferro graças à ajuda pontual de alguma vizinha, amiga e filha que nos foram visitar. Contratar uma mulher-a-dias foi algo que a CP não admitiu que fizesse.

“-Tenho pena do que vou deixar de fazer” Ao telefone com a amiga Fernanda em 26-09-2008
A CP não vê as sequelas deixadas nos sinistrados – marcas físicas, incapacidades intelectuais, insónias, fobias, stress … , nem vê o estado do caminho de ferro da Linha do Tua.

É acusada de incúria nos meios de comunicação social mas ninguém é responsabilizado.

Os resultados de inquéritos aos anteriores acidentes não são publicados. Dois meses depois do acidente de 22 de Agosto, ainda não foram divulgadas as causas. Que foi feito à “caixa negra” do comboio? Porque se omite a que velocidade seguia?
É preciso ser técnico altamente qualificado para diagnosticar o estado da linha do comboio no local do acidente?
Quem acredita na história do hipotético abatimento de terras em tempo seco e em vistorias que se diz serem feitas diariamente?
Todos os que defendemos a preservação da Linha do Tua, devemos estar muito atentos.
Brunheda, voltada para o
vale do Rio Tua

Fonte : http://ferradodecabroes.blogspot.com/search/label/Acidente

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