APRESENTAÇÃO – DOM DUARTE E A DEMOCRACIA – UMA BIOGRAFIA PORTUGUESA, DE MENDO CASTRO HENRIQUES, 25 DE MAIO DE 2009 – POR SÉRGIO TOSTE
31 Mai 2009 1 Comentário
1 – SAUDAÇÃO
Antes de desempenhar a grata e leve incumbência que me foi atribuída – a de vos apresentar o livro Dom Duarte e a Democracia – Uma Biografia Portuguesa, do Professor Mendo de Castro Henriques, já nosso conhecido – permita-se-me que, em nome da Direcção da Real Associação da Ilha Terceira e em meu nome, possa expressar a nossa mais alma alegria pela presença de Sua Alteza Real.
Senhor Dom Duarte, cremos que só um monárquico poderá sentir e entender o júbilo de estar perante o penhor da sua fidelidade! Em Vós reconhecemos «a Pátria em figura humana»; há em todos nós esse inefável sentimento que consiste em viver de uma lealdade antiga a um Portugal que já foi e há-de ser, sem desviarmos o rosto do Portugal que vai sendo. Creia, Senhor Dom Duarte, que a presença da Vossa Real Pessoa entre nós é renovação e alimento desse ideal que nos une. Bem-haja! É um alto privilégio falar perante o Herdeiro dos Reis de Portugal! E alegro-me de modo particular quando o autor desta Biografia afirma, falando de Vossa Alteza, «Quando se inicia a biografia de um rei de Portugal» (p. 25), e ainda com p. 433 desta obra, onde, sob o título de «Reis de Portugal», se encontram de forma naturalíssima os actuais Duques de Bragança e os Infantes.
Não sou historiador, nem faço investigação. Atrevo-me a falar-vos deste livro apenas na minha condição de monárquico e de leitor habitual, que se presume capaz de distinguir o trigo do joio no cenário das nossas publicações. E esta obra é seguramente trigo, e um trigo que poderá ser bom alimento de muitos ideais. Por coincidência, esta leitura surpreendeu-me a meio do ensino do Memorial do Convento, que tenho de leccionar, por manifesta insuficiência dos nossos Programas escolares, condenados a “formar” a juventude apresentando um Portugal que se ri do seu passado, como que em delirante perpetuação da Geração de 70. De facto, obrigar todos os finalistas do 12.º Ano a lerem o romance de Saramago, sem nenhuma outra opção, como já chegou a haver, é um sinal bem forte dos ventos que sopram de Lisboa. E demoro-me neste ponto, porque, de acordo com a Biografia de D. Duarte (p. 75), há em Sua Alteza uma grande preocupação com a educação dos jovens, como se vê, por exemplo, na fundação do Prémio Infante D. Henrique. É uma questão de auto-estima nacional e de justo ensino e reflexão sobre o passado, não de liberdade de publicação e de leitura, que está fora de questão. Entendo, como é óbvio, que se deve poder publicar e ler tudo, mas é bem diferente o que se elege para ser lido e pretensamente assimilado por várias gerações! Neste sentido, os nossos Programas do Secundário são um desastre: pela pobreza das leituras exigidas em quantidade e qualidade. Permanece uma excessiva tendência ideológica no nosso ensino: Monarquia e Igreja são dois temas especialmente cobiçados para se fazer sátira, sem nenhuma preocupação de aprofundar as realidades! Não é difícil que, assim, seja apresentado um rosto desfigurado de Portugal. Curiosamente, cita-se, em epígrafe, no capítulo 8 desta obra, José Adelino Maltez: «Em vez de jangada de pedra de saramagos descrentes temos de ser uma estrada boiante de agostinhos convictos». Por tudo isto, considero feliz a coincidência de ter lido neste momento a Biografia do Senhor Dom Duarte, como uma espécie de antídoto contra os efeitos deletérios dessa propaganda anacrónica e, muitas vezes inconsciente, quero crer. Por outras palavras: a monarquia do presente, vivida e incarnada no Duque de Bragança, mostra a bondade da Causa, pois «Dom Duarte reinventa o papel social e político de herdeiro dos Reis de Portugal» (68), pugnando por um perfeito esclarecimento do que se entende por monarquia quando dela falamos nos dias de hoje, ao mesmo tempo que nos obriga a ler o passado de forma mais profunda.
2 – O TÍTULO DA OBRA
Desde o título, em boa hora encontrado, lemos todo o sentido desta biografia de 470 páginas, em belíssima edição da Bertrand. Falar de Dom Duarte e da Democracia significa falar de uma acção empenhada, sistemática e ininterrupta em prol de Portugal, numa sugestiva harmonia entre o Dom e a Democracia; e assim podemos ler: o poder representado no Dom, de Dominus, é um dom, donum, uma dádiva para o regime democrático; ser Senhor-Dom não é um óbice a que se trabalhe pela Democracia, antes uma exigência de serviço, unindo o melhor da autoridade com o melhor da liberdade e do poder do povo. Uma Democracia sem autoridade, que é muito diferente de “autoritarismo”, condena-se a si mesma, e nós acreditamos que Rei e Povo podem formar uma aliança inquebrantável, pois o Rei há-de ser o guardião desinteressado do bem-estar do seu Povo, e o Povo delega livremente no Rei a sua soberania. E o subtítulo – Uma Biografia Portuguesa – revela ainda uma intrínseca unidade entre a vida de Dom Duarte e Portugal: contando-se a sua vida, conta-se a biografia do próprio país, e, ao invés, falando-se do país, tem de se falar de Dom Duarte.
3 – DOM DUARTE E A DOUTRINA MONÁRQUICA
Um dos aspectos mais esclarecedores e apaixonantes desta biografia consiste na necessidade sentida por Sua Alteza de clarificar a doutrina monárquica. Afirma-se que «Dom Duarte lamenta que os monárquicos sejam conotados com gente de direita» (92), militando sempre por desfazer a associação entre “monarquia” e “reaccionarismo”. Aliás, a nossa História recente mostra bem o contributo dos monárquicos na resistência à ditadura. O facto de o Doutor Salazar, com máxima ironia, ter perguntado se os monárquicos «enfiavam o barrete frígio» (89), de ter exercido uma ardilosa contemporização com as aspirações monárquico-democráticas e ainda a manipulação que exerceu sobre os bens da Casa de Bragança mostra o quão consciente era daquilo que o separava de um verdadeiro regime monárquico. Por outro lado, o controlo a que a PIDE (89) submetia a oposição monárquica à II República e as repressões na sequência do 12 de Março de 1959 (90) comprovam à saciedade o confronto das duas posições. Depois de Abril de 74, as forças monárquicas deram provas cabais da sua plena integração no sistema democrático. É bem verdade que nem toda a direita é reaccionária, mas, pela minha parte confesso que só pela leitura deste livro entendi a fundo a pertinência desta questão; ela é verdadeiramente vital para a definição e estabelecimento de uma monarquia democrática, como todos desejamos. (Permitam que lembre, entre parênteses, que a coexistência do Presidente e do Secretário da Direcção da Real Associação da Ilha Terceira são prova de um entendimento e cooperação em nome de interesses bem superiores.) Na pessoa de Sua Alteza, podemos ver a prudência dos reis e a concretização de um espírito imparcial e soberano, fidelíssimo ao bem do Povo e da sua idiossincrasia. Sem nunca negar os valores cristãos, e por isso, universalistas e abertos e tolerantes, desde a defesa da vida humana em todas as suas fases, à justiça e ao bem-estar das populações. É todo um programa de vida, a que chamaremos régio, sem haver lugar para nenhuma ironia. Este livro é a prova de um rei em exercício, que soube e sabe reinar à maneira do Evangelho, pelo serviço. E aqui não há exagero. A vida de Dom Duarte, tal como é magistralmente descrita, e sabemos que assim é, pretende desfazer o lamentável equívoco que associa «democracia com república e monarquia com ditadura» (94). Por muito que tenha sido feito, muito há a fazer neste sentido, sobretudo no combate contra esse pecado mortal do nosso século que dá pelo nome de indiferença.
4 – DOM DUARTE E OS PARTIDOS POLÍTICOS
É sabedoria de Dom Duarte a clara superação dos dilemas da direita e da esquerda, reafirmando sempre que o ideal monárquico é supra-partidário (108). É evidente, por conseguinte, que os membros das Reais Associações são partidários das várias forças políticas, exceptuando-se obviamente aquelas que porventura sejam antidemocráticas e manifestamente antimonárquicas ou coloquem em causa os valores morais da “fisionomia da pátria”, expressão várias vezes utilizada. Procura-se um «rejuvenescimento democrático do ideal monárquico», numa clara projecção para o futuro. Só assim se entende o restabelecimento das ordens honoríficas dinásticas (98), como a de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa ou a de Santa Isabel, numa lógica de promoção das actividades de mérito em prol do país, antes de mais. Dom Duarte distingue perfeitamente aquilo que são as expressões datadas da monarquia daquilo que é a sua essência, por isso intemporal. Afirma sem rodeios:
«As monarquias são sempre modernas e simbolizam sempre as suas épocas. Na Idade Média, o rei era o cavaleiro, o militar e guerreiro à frente nas batalhas; na Renascença, o rei era um cientista, defensor das artes e da cultura.» (121)
Acrescentaria eu que hoje é pedido aos reis que sejam de forma especial os guardiães da esperança e a garantia de que não se perderão irremediavelmente as riquezas da Tradição. Afirmações como: «A monarquia evoluiu do poder total para a ausência de poder» (122), aí morando a sua força, «A monarquia é democrática ou não é» (34), «O Rei é símbolo da república e a sua melhor garantia» (27), «a democracia implantou-se em Portugal à sombra da Monarquia» (118) revelam-nos uma lúcida visão do ideal monárquico para o nosso tempo e a sua perfeita realização. Cita-se Jacques Monet:
«Um rei é rei, não é porque é rico e poderoso, não porque pertence a um credo particular ou a uma minoria nacional. Nasce rei. E ao deixar a selecção do chefe de estado a este denominador o mais comum no mundo – o acaso do nascimento – proclama-se implicitamente a fé na igualdade humana; a esperança no triunfo da natureza sobre a manobra política e sobre os interesses sociais e do capital financeiro e na vitória da pessoa humana.» (27)
5 – ARGUMENTOS PRÓ-MONARQUIA
Estas páginas são uma serena e profunda argumentação a favor da monarquia. Pretende-se exorcizar os fantasmas e preconceitos acerca da realeza: cortes faustosas, privilégios, casamentos de estado, cerimoniais bizantinos… estas são meras formas históricas que, num dado momento, acompanharam a monarquia, mas a sua essência é cousa bem diversa. Hoje, segundo Dom Duarte, os reis constitucionais vivem com o realismo do nosso tempo: cumprem os deveres do seu ofício, casam-se com quem estimam, representam o poder dos sem-poder e continuam a evocar o que há de melhor em cada um dos seus povos (120). Permanece, deste modo, intacta a alma da monarquia: a estabilidade, a preparação de toda uma vida para se ser chefe de Estado e a consequente fidelidade dessa vida à missão assumida, a “capitalização” de conhecimento e de contactos, a duradoura comunhão com a Nação, a equidistância em relação a todas as forças políticas e grupos de interesse, a prudente moderação, a pertença livre e soberana a uma Pátria, sem haver necessidade de disputa política, nem de retórica empolada, nem muito menos de demagogia, o profissionalismo genuíno no serviço ao Estado, a independência perante o “fazer carreira”, a garantia da defesa dos valores comuns. Perante a triste feira em que por vezes se transforma o sistema republicano, perguntamo-nos onde mora a democracia. O facto é que a expressão do “poder do povo” não passa frequentemente de fruto de uma operação de marketing, do triunfo das oligarquias, de um mercado, enfim, em que vende mais quem fala melhor, quem melhor veste e se mascara, quem pode exercer mais ou menos influências. O elevadíssimo nível da abstenção em todas as eleições, e mesmo referendos, é um sinal muito claro de um mal-estar democrático. Diante deste cenário, os monárquicos afirmam sem tergiversar que um Rei é a melhor garantia do interesse comum. Afirma-se: «Um rei reforça a vida colectiva e fortalece a democracia» (207). Um monarca, uma família real, pertencem à Nação, não o contrário. Muito mais do que uma bandeira ou um hino, o Rei é o símbolo de uma comunidade; na hereditariedade encontra-se a espinha dorsal e o sustentáculo de um país. Não nos enganemos: na organização das comunidades humanas, a dimensão simbólica está longe de ser secundária. Pelo que fica dito, na nossa situação de europeus que querem continuar a ser soberanamente Portugueses é de todo indispensável repensar os benefícios de uma restauração da monarquia, da sua perfeita viabilidade e mesmo oportunidade, não para derrubar a República, como fica bem expresso nesta obra, mas para a coroar! Talvez não esteja longe o tempo em que se chame os Reis de Portugal como garantia plena da nossa portugalidade.
6 – DOM DUARTE, ENTRE O IDEAL E O PRAGMATISMO
Este livro é também o testemunho da síntese entre o ideal e o pragmatismo. Dom Duarte surge como o herdeiro da espiritualidade portuguesa – manifestada quer no seu pendor mais lidimamente católico, como na devoção a Nossa Senhora ou o culto ao Espírito Santo, como ontem tivemos a graça de viver, quer no interesse pelos chamados mitos fundacionais (79), como Ourique, ou o Quinto Império, ou ainda na inspirada poesia de Pessoa, esse ambíguo profeta de um Portugal a ser. Dom Duarte é, reafirme-se, um indefectível defensor dos valores cristãos, tendo uma claríssima consciência de que a cultura europeia, nas suas manifestações mais nobres de liberdade e de dignidade, é filha da dinâmica do Evangelho. Com desassombro, afirma que «ser cristão é ser moderno», facto que na Europa se vai esquecendo ou de propósito ocultando, mas que o mundo persiste em redescobrir. O herdeiro dos «soberanos das três religiões», como diz, é senhor de um autêntico diálogo com as outras tradições religiosas, sobretudo as comunidades judaicas e muçulmanas, também na linha do Santo Condestável, cujo processo de canonização foi persistentemente apoiado por Dom Duarte, sabendo bem que os heróis da História e do Cristianismo são grandes educadores do presente. Entende-se mesmo que a sua viva consciência da História, só possível em quem dela participe de uma forma tão responsável quanto a hereditariedade dinástica exige e alimenta, impele Sua Alteza a curar as feridas do passado, congregando os Portugueses dispersos pelo mundo e pelas várias ideologias. A visita à Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque, fundada em 1654, e o convite para almoçar feito aos descendentes de Isaac Abarbanel, tesoureiro de D. Afonso V, (por esse almoço D. Duarte afirmou “ter esperado 500 anos”…) revelam-nos esse profundo empenho em reconciliar os Portugueses com a sua História e a História com os Portugueses. Não menos significativo, e para os monárquicos algo incómodo, é o estabelecimento de laços de diálogo e respeito com a Maçonaria. Há, por conseguinte, em Sua Alteza, uma vocação a que eu chamaria profética e pragmática ao mesmo tempo, pois luta por não excluir ninguém do horizonte português e declara mesmo como dogma: «o Príncipe é de todos e não de ninguém». (201)
Desta síntese, brota uma série de iniciativas consistentes: o diálogo com o Brasil; com a África lusófona, paixão antiga de D. Duarte, cujo território foi calcorreado por Sua Alteza, muito antes de 1974, e defendido numa “terceira via” equilibrada e oposta à intransigência da II República e à sanha cobiçosa dos regimes comunistas; as justíssimas causas da defesa de Timor e Cabinda; a defesa do ambiente, do ordenamento do território, da agricultura, num empenho ímpar pela protecção do melhor de Portugal; a promoção do mutualismo agrícola; os constantes contactos com a diáspora portuguesa, consignados na fundação da Portuguese Heritage Foundation (78); as numerosas obras de solidariedade (72) e muitas outras iniciativas que pretendem edificar o Portugal de hoje. Mas sublinhe-se que a ponte entre Portugal e os países lusófonos é o mais esplendente da sua acção. O facto de falar, no cenário da monarquia restaurada, de uma federação num Reino Unido de Portugal, Açores, Madeira, etc… é um sonho ambicioso, mas tão possível. Sem sombra de fantasmas colonialistas e dando um ousado significado à Comunidade de Países de Língua Portuguesa… Além do mais, as numerosas viagens que Dom Duarte tem feito são a expressão do verdadeiro universalismo que encarna e que é o melhor do nosso povo. Estados Unidos, Rússia (onde forma vivíssima Dom Duarte contactou com a força do renascimento religioso, simbolizado no ícone de Nossa Senhora de Kazan, a cuja história também esteve ligado), China, Índia, toda a Europa, com especial destaca para a Santa Sé e a Espanha, e muitos outros lugares foram visitados com atenção e respeito por Dom Duarte, não como um turista, mas como alguém fascinado pela variedade das experiências, terras e culturas humanas. Dessas experiências têm nascido iniciativas como a Associação Cultural Luso-Russa. Dom Duarte é, em larga medida, o primeiro embaixador de Portugal no mundo. Não é difícil vermos nesta vida exemplarmente vivida e contada a realização de muitos dos versos da Mensagem, de Pessoa: o espírito fecunda a matéria.
7 – A DOCUMENTAÇÃO NA OBRA
É de destacar na obra a parte da Documentação. Nela se incluíram documentos acerca da Monarquia na Assembleia da República e uma larga recolha de Documentos Históricos que vão desde o Assento das Cortes de 1641, passando pela Carta de D. Manuel II ao Povo Português, ao conteúdo do «Pacto de Dover» ou a Mensagem do Senhor Dom Duarte Nuno por ocasião do nascimento do Príncipe da Beira, em 1945, esse magnífico documento humano e régio. Segue-se a compilação das Mensagens do 1.º de Dezembro de 1980 a 2005, e de outras Mensagens promanadas de Sua Alteza, uma Cronologia de Actividades de 1998 a 2006, a explanação das relações familiares entre os Reis de Portugal a as Casas Reais Europeias e uma série de Testemunhos sobre Dom Duarte. Além do inegável interesse de cada um destes documentos, saliente-se que, no seu conjunto, eles oferecem um quadro vivo da história da Família Real e de Dom Duarte, sempre em simbiose com a História de Portugal. Por seu lado, a cristalina argumentação, no Posfácio, do Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, esse monárquico moderníssimo, é outro dos momentos altos desta Biografia. Quanto às fotografias de Dom Duarte e da Família Real aqui reproduzidas, elas são, no seu carácter mais oficial ou mais familiar, a expressão de um rosto humaníssimo da pátria.
(continua)
Fonte : http://bagosdeuva.blogspot.com/
Campanha em defesa de jornalista e escritora mexicana
29 Mai 2009 Deixe um Comentário

A comissão dos Escritores Presos do PEN Club International lançou um apelo à escala mundial para que sejam enviados e-mails a diversas entidades mexicanas, reclamando a adopção de medidas que garantam a segurança e a vida da jornalista e escritora mexicana Lydia Cacho, que tem recebido numerosas ameaças de morte.
Lydia Cacho Ribeiro, que é neta de um português, é uma conhecida activista dos direitos humanos.
É autora do livro Os Demónios do Eden, no qual denuncia a mafia da pederastia no México, implicando várias personalidades públicas, e revela a exploração comercial do sexo com a anuência da classe política.
Cacho menciona 16 vezes no seu livro o ex-senador e actual deputado Emilio Gamboa Patrón, coordenador parlamentar do PRI na Câmara de Deputados (2006-2009) e faz 27 referências a Miguel Ángel Yunes, outro proeminente político do México.
Grande estreia em televisão… “Anthero – O Palácio da Ventura”, dia 1 de Junho às 21h45
29 Mai 2009 Deixe um Comentário
in Uncategorized Etiquetas:Antero de Quental
Grande estreia em televisão… “Anthero – O Palácio da Ventura”, dia 1 de Junho às 21h45
Um trabalho com a assinatura do realizador José Medeiros
Uma equipa de televisão roda em várias localidades do país (S. Miguel, Coimbra, Vila do Conde, Lisboa) um filme inspirado na vida e obra do Poeta e Filósofo Anthero de Quental.
Para Pedro K, o Realizador, a vida e a morte do Poeta serão encenadas pelo olhar de um Grupo de Saltimbancos e pelo testemunho de algumas das personalidades que o conheceram melhor: Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Teófilo Braga e sua irmã Ana Quental, cujos pontos de vista, por vezes contraditórios tentarão desvendar alguns dos enigmas que assombraram a atormentada existência de Athero e as completas razões que o levaram ao banco onde, sob a âncora da Esperança, o Poeta descreveu na vida e se suicidou.
A rodagem decorre com as dificuldades inerentes a uma produção de baixo orçamento, mas sem grandes sobressaltos. No entanto para Pedro K este trabalho é mais do que um filme, é uma viagem aos “misteriosos sinais do seu código genético”…
“Anthero – O Palácio da Ventura”, uma obra com argumento de José Medeiros e André Medeiros Palmeiro, baseado num esboço de Vasco Pereira da Costa, imagem de José Fontes, edição de Bruno Correia, direcção de fotografia de Carlos Azevedo, produção de Emanuel Macedo e música e realização de José Medeiros.
OS CONSELHEIROS DE ESTADO (E A REPÚBLICA), João Gomes De Almeida
28 Mai 2009 Deixe um Comentário
OS CONSELHEIROS DE ESTADO (E A REPÚBLICA), João Gomes De Almeida

Vivemos numa república – o que é trágico, pasmem-se, mesmo trágico. Existem cada vez mais sinais de que esta república está a morrer, a cair de podre, não só enquanto paradigma político, mas mais do que tudo enquanto forma de regime. Esta república não serve os interesses do povo, não serve os interesses de Portugal – esta república tem o grande problema de excluir mais as pessoas do que as unir. Esta república peca por vários motivos, o primeiro deles todos é ser uma república.
Ora vejamos, no estimado Corta-Fitas, a Maria Inês de Almeida deixa algumas questões pertinentes: “Não há mulheres conselheiras para além da Leonor Beleza? Que idade tem o mais novinho conselheiro de estado? E a partir de que idade é que se pode dar conselhos?”. Meus caros, os conselheiros de estado são o espelho da nossa república, se não vejamos:
Temos em primeiro lugar sete inerências directas devido ao exercício de cargos da nação, respectivamente: Presidente da República, Presidente da A.R., Primeiro-Ministro, Presidente do TC, Provedor de Justiça e os dois presidentes dos governos regionais.
Depois temos três lugares (para já) reservados aos ex-presidentes, que por pior mandato que tenham feito têm direito a ser conselheiros, ou como diz a Maria Inês a “darem conselhos”.
De seguida apresentam-se as nomeações laranjas, perdão, as nomeações do Sr. Aníbal. Que são o media man Marcelo Rebelo de Sousa, a polémica ex-ministra Leonor Beleza, o médico e agora escritor como o irmão, João Lobo Antunes e o Pedro Miguel da Conceição Agostinho, que veio substituir o polémico banqueiro/bancário dos 10 milhões, Miguel Cadilhe.
Por fim temos os “eleitos” da Assembleia da República, onde encontramos Jorge Coelho, o CEO de uma das maiores empresas de construção do país, Francisco Pinto Balsemão dono de uma das maiores cadeias de comunicação social do país, António de Almeida Santos, o autarca António Capucho e Manuel Alegre ex-futuro líder do novo partido de esquerda.
Não fui fazer as contas, mas facilmente percebemos que a média etária do Conselho de Estado deve andar aí pelos 60? anos, sendo que José Sócrates vem desequilibrar um bocadinho as contas. Em suma, a república em Portugal dá imunidade e chama a conselheiros únicamente pessoas que já têm responsabilidades de estado, que são indicados pelos partidos políticos representados na A.R. ou que são indicados pelo próprio P.R. o que neste caso significa serem simpatizantes do PSD (vejamos que três ex-líderes do partido estão no Conselho de Estado).
Agora deixo eu algumas questões: porque é que a república não chama a aconselhá-la pessoas com reconhecido mérito na sociedade civil? Porque não vemos o Fernando Nobre (Presidente da AMI), o Manoel de Oliveira (cineasta), o Arquitecto Ribeiro Telles (ecologista), o Professor Mendo Castro Henriques, o Vasco Rocha Vieira (general), o Pedro Ayres de Magalhães (compositor e músico), a Agustina Bessa Luís (escritora), o Vergílio Castelo (actor) ou o Miguel Esteves Cardoso (jornalista) no Conselho de Estado? Será que não seria preferível ouvir estas pessoas? A resposta talvez seja óbvia: a república serve apenas a política dos interesses e do lobby. Estas pessoas não interessam à república.
PETIÇÃO: “Urge um debate público nacional sobre o futuro do Terreiro do Paço!”
28 Mai 2009 Deixe um Comentário

Assine em http://www.gopetition.com/online/28118.html
E divulgue!
Caro(a) Amigo(a)
Considerando a aprovação em reunião pública da CML, de 27.05.2009, do “Estudo Prévio do Terreiro do Paço”, sem que até ao momento quem de direito (CML e Governo) tenha promovido o indispensável período de debate que um projecto de espaço público desta envergadura exige (por se tratar de um projecto comprovadamente intrusivo, ex. introdução de novos materiais, desenhos e soluções arquitectónicas), facto que é agravado por se tratar do Terreiro do Paço;
E considerando que decorrem a bom ritmo as obras de preparação para a execução do Estudo Prévio agora aprovado, tornando o mesmo irreversível;
Os abaixo-assinados solicitam a quem de direito que proceda, quanto antes, à abertura de um período de discussão pública antes de se iniciar o projecto de execução ou (pelo menos) antes do concurso ser lançado.
OBRIGADO!
Paulo Ferrero, Bernardo Ferreira de Carvalho, Jorge Santos Silva, Luís Marques da Silva e Júlio Amorim
PETIÇÃO
Urge um debate público nacional sobre o futuro do Terreiro do Paço!
Assine em http://www.gopetition.com/online/28118.html
E divulgue!
Fonte : http://cidadanialx.blogspot.com/
FASCISMO NUNCA MAIS!
28 Mai 2009 1 Comentário
FASCISMO NUNCA MAIS!

Conta-se que Dino Grandi[1]– Ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália sob a égide de Mussolini e Presidente do Grande Conselho Fascista – terá chegado a dizer que «fascismo é a prática do improviso resultante da prodigiosa imaginação do Duce».
Toda a teorização é balofa perante esta definição.
O conceito de Estado, a subjugação da pessoa, o corporativismo, etc., foram «coisas» que Mussolini empiricamente fez para controlar o Poder e depois foi à procura duma justificação teórica. A verdade, contudo, terá estado na boca de Grandi. E só na dele.
Ora, se o pensamento crítico se caracteriza fundamentalmente pela ultrapassagem dos limites definidos pelas opções tradicionais contidas no dogma, estamos neste caso perante a imposição de uma situação dogmática – o Poder pessoal de Mussolini – cujos limites são ab initio desconhecidos mas a quem posteriormente (depois da imposição consumada) se procura atribuir algum enquadramento histórico e definir conteúdos. E isso é feito de preferência num plano abstracto para desse modo se pintar um cenário de teorização. Uma impostura em que são as consequências que definem a causa; inversão lógica, empirismo grosseiro. Total ausência de valor científico e processo repulsivo para qualquer hipótese de um eventual enquadramento académico.
O capricho do ditador, a ausência de norma que pudesse condicionar esse capricho, eram a pedra fundamental do regime fascista; o contrário do Estado de Direito, o oposto integral da equidade. Apenas uma regularidade: a arbitrariedade.
Nesta mesma categoria se enquadraram Hitler, Staline, Franco, Bocassa; Helena Ceauscescu, Chiang Ching (última mulher de Mão Tsé Tung) e Eva Péron cujos maridos oficialmente detinham o Poder mas que, afinal, eram elas a exercer com a maior impunidade. Abstenho-me de citar outras más fortunas que a Humanidade suportou…
Todos estes pesadelos alcançaram o Poder e definiram um dogma que consistia na sua própria detenção desse mesmo Poder. Baniram o pensamento crítico e quando ele ousou mostrar-se liquidaram-no tão radicalmente quanto julgaram necessário para a manutenção do dogma. A essência da missão era a manutenção do Poder e para que isso acontecesse tudo se justificava. Não olhar a meios para alcançar o objectivo, eis uma característica da prática fascista.
Passados aqueles ditadores em revista, reconhecemos-lhes uma característica comum: baixíssima intelectualidade. Apenas Franco possuía alguma instrução.
Todos aqueles casos malévolos foram revolucionários e invocaram a revolução para manterem viva a chama do Poder. Mas a partir do momento em que um novo padrão se define, a revolução morre e a vida passa a pautar-se nessa nova conformidade.Eis por que não faz qualquer espécie de sentido a gritaria tão habitual do género A revolução continua!Ora, se impuseram o seu padrão e o conservaram, então deixaram de ser revolucionários e passaram a ser conservadores – conservadores do seu próprio padrão, o vitorioso. Assim se cai no fascismo, o tal que não tem lado direito ou esquerdo e que se define apenas pelo capricho em total antinomia com o Estado de Direito.
Por tudo isto, clamo: – FASCISMO NUNCA MAIS!
Logicamente, excluo Salazar da categoria que venho referindo. E faço-o por várias razões a que me referirei mais logo…
Lisboa, Maio de 2009
Henrique Salles da Fonseca
Fonte : http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/366727.html
Sou de Esquerda !
24 Mai 2009 Deixe um Comentário
Veja a sua posição política aqui :http://veja.abril.com.br/idade/testes/politicometro/politicometro.html
O Anti-Republicanismo de Antero de Quental – Parte 1
23 Mai 2009 2 Comentários
in Uncategorized Etiquetas:Antero de Quental, RESPÚBLICA

A União Democrática Portuguesa nunca chegou a conhecer a luz do dia, extinguindo-se, como projecto, naquele ano de 1873, possivelmente em Abril, na sequência das divergências programáticas assinaladas. No entanto, a sua finalidade última continuará presente nas opções imediatamente posteriores do poeta, sobretudo nos seus esforços para impedir o avanço das ideias colecti vistas, para bloquear o crescimento do republicanismo e para convencer as classes laboriosas de que a mera mudança de regime não acabaria com as injustiças sociais. Assim, em Julho de 1873, voltava a defender ser urgente lançar as «bases do verdadeiro partido republicano-socialista, zurzindo entre tanto sem piedade as seitas tolas e visionárias, os declamadores chatos e a corrupção geral». E isto porque, em sua opinião, o pior que poderia acontecer era que «os declamadores e os pulhas que actualmente constituem a quase totalidade do grupo republicano» 787 lograssem conquistar o povo português.
Este anti-republicanismo não surpreende. Já em Março de 1873, isto é, na conjuntura em que se procurava lançar a União, receava que os «republicanos lunáticos» (nome por que era conhecido um grupo que, liderado por Oliveira Marreca, se reunia no Pátio do Salema) tivessem conseguido captar o apoio de Alexandre Herculano para um acto eleitoral: «Escrevo à pressa», noticiava a Martins, «por isso só sumariamente lhe direi que o Herculano, saindo da con cha agrícola [isto é, de Vale de Lobos], está entusiasmado por uma grande reforma, toda municipal, com bases democráticas (!) e, quanto posso conjec turar, a vinda dele agora a Lisboa tem talvez por fim entender-se com Marreca e c.a (que tratam de formar partido republicano) para esse fim788.»
Mas esta vigilância começou a dar um maior relevo aos movimentos da corrente federalista, onde, de um modo mais consequente, o radicalismo político se juntava ao positivismo e ao moDismo naturalista. Compreende-se. Este sector integrava Teófilo Braga e alguns antigos companheiros de Antero, e era o que tinha mais pretensões reformistas. Em 22 de Junho de 1873, criou o Centro Republicano Federal de Lisboa e lançou o jornal O Rebate, cujo primeiro número (29 de Junho) inseria o respectivo programa. O paladino da União Democrática Portuguesa reagiu imediatamente, acusando a iniciativa de querer caçar no seu próprio terreno. Daí O teor deste desabafo, feito ao amigo e confidente Oliveira Martins: «Envio-lhe o primeiro número dum jornal do Teófilo, que me mandou o [José] Fontana. É um documento! Que programa!, tiraram ao acaso frases do nosso e amalgamaram-nas com asneiras da própria lavra. Veja também o artigo de fundo, espécime Teófilo tout puro tolo e malévolo. Lá se insinua que os homens da evolução (somos nós) são meros sedentários e inactivos… Que diz a isto?, e que lhe parece duma república feita por esta boa gente?» 789
Com efeito, sob o entusiasmo da revolução espanhola e com a vis jacobina que alimentava o movimento, o articulista anónimo – Teófilo, segundo Antero – escrevia: «Temos porém um equívoco em que laboram os homens de boa-fé [referência a Antero e a Oliveira Martins], sedentários e apáticos: não poderá ser substituída a revolução pela evolução?» E a esta pergunta respondia, com os olhos postos na denúncia dos que desvalorizavam da questão do regime: «Não podemos opor às instituições anacrónicas, que ainda subsistem, a simples inércia da evolução. É preciso alguma coisa de mais forte; depois que se examinou a nau e se reconheceu que não estava capaz de navegar, em vez de deixá-la apodrecer sobre a areia meta-se-Ihe o machado e utilize-se o que tem préstimo para outros fins. É este processo lógico o que se chama revoluçã079o.»
A pedra-de-toque entre o republicanismo e o socialismo começava a tomar -se evidente. E, no terreno dos acontecimentos, Antero sentia-se aliviado com o facto de o exemplo de Castelar e de Pi y Marssall não se ter propagado a Portugal. Mas isso não afastava os seus receios. E que, como escrevia, ainda em 1873, «o pior que nos pode acontecer é sermos amanhã república. Seria um 48, mas sem o talento, o entusiasmo, o idealismo do outro; um 48 chato». Saudava, por isso, a rápida passagem do «arrepio causado pela proclamação da república em Espanha». Mas, em sua opinião, o facto de, nos centros republicanos, não se encontrar «um homem nem uma ideia» tomava o movimento antidinástico ainda mais perigoso.
Este procedimento crítico foi-se definindo a um ritmo tal que, em Setembro de 1873, congratulava-se com a circunstância de a «fantasia republicana» estar «desfeita de todo no nosso grupo socialista», dando «por isso muitas graças a Deus». Todavia, tinha a consciência de que as suas ideias e acções passadas continuavam a suscitar equívocos quanto à questão do regime. No artigo «A República e o Socialismo» (1873) procurou esclarecê-las. O que não bastou, como se prova pelo desenrolar dos acontecimentos. Aquando do banquete comemorativo (25 de Março de 1876) da consolidação da III República francesa, foi convidado para participar no ágape congratulatório. «Sabe que», dizia, em evidente ironia, ao autor da Teoria do Socialismo, «há aqui grande faina de organização e reorganização de partidos: o republicano está finalmente constituído e com gente séria e tende a engrossar. Deu banquete e abriu centro [referência à fundação do Centro Republicano Democrático de Lisboa]. Ora eu fui convidado para o banquete, e não fui ao banquete; convidado para o centro, e não vou ao centro. Sou, pois, grande traidor! Como isto me aborrece e, por outro lado, estou convencido de que todo este radicalismo (os históricos e reforrninhos estão aqui estão republicanos) é absurdo, estéril, perigoso; como, ainda por outro lado, acho que é caso de consciência esclarecer sobre tudo isto os nossos amigos socialistas e preveni-]os contra a propaganda republicana que os trabalha; tomei uma resolução: boto folheto!»
Apesar de, no artigo citado, ter esclarecido o que pensava sobre as diferenças entre o socialismo e a república, sentia não haver sido compreendido. E a ameaça jacobina impunha a necessidade de se quebrar «com os republicanos, e eu estou resolvido a fazê-lo em voltando a Portugal [Antero encontra-se, então, nos Açores). Já esbocei para essa execução um folheto com o título: “Os Republicanos perante a República”». E, referindo-se ao grupo União Democrática Portuguesa, precisava: «urge que ninguém nos tome nem por jacobinos nem por comunistas.» Como não cumpriu aquele desígnio, três anos depois voltou a ele, mas novamente se ficou pelas intenções. Por conseguinte, continuou a sentir a necessidade de «botar folheto», isto é, de explicar à opinião pública como era socialista e por que é que, do «ponto de vista socialista, todos os partidos são estéreis, e como o repub1icanismo hoje e aqui é uma quimera. Digo por uma vez o que penso e saio duma situação equívoca que me incomoda», Fá-lo-ia num opúsculo que se iria intitular O Socialismo e os Partidos. Por razões que se desconhecem, mas que devem estar ligadas ao agravamento do seu estado de saúde e à sua ida para Paris, este texto também nunca conheceu a luz do dia. Em 1878, voltava a reagir contra as más interpretações do seu pensamento político: um pequeno grupo republicano-federalista, ou melhor, republicano -socialista (de Alcântara), propô-lo como candidato pelo círculo 98 (sê-Io-á, no ano seguinte, mas numa candidatura socialista); obviamente que não aceitou, tendo respondido «que achava equívoca a expressão republicano-socialista, e como este equívoco praticamente me parece perigoso, só aceitaria a dita candi datura com o carácter exclusivamente socialista, com toda a reserva da questão política e em completa isenção do movimento republicano actuaL.. Não sei o que pensarão e dirão os republicanos. Talvez seja uma ocasião de me explicar sobre a delicada distinção entre socialista e republicano, e de sair de uma vez por todas dum equívoco que me pesa».
Fonte : Antero de Quental, de Fernando Catroga, Editorial Notícias
O Anti-Republicanismo de Antero Quental – Parte 2
23 Mai 2009 Deixe um Comentário
in Uncategorized Etiquetas:Antero de Quental, RESPÚBLICA
Esse esclarecimento foi feito nas candidaturas seguintes e, em particular, através do lançamento, em 1880, de um manifesto aos eleitores do círculo 98.800 Na verdade, aproveitou a oportunidade para contestar os fundamentos do demoliberalismo, os seus postulados individualistas e as suas nefastas conse quências, a saber: o parlamentarismo, o empolamento da questão do regime e a secundarização do problema social. Nesta perspectiva, o republicanismo era apresentado como uma ideia política radical e anacrónica, e os seus adeptos acusados de serem > Como se verifica, a sua posição de fundo não se modificou com o tempo, antes se precisou e aclarou. E se, em 1871 e nos anos seguintes, o seu ideal de sociedade ainda era identificado pela expressão «república democrática e social»803, crescentemente, os termos foram sendo dissociados. O entendimento da questão do regime à luz da sobre determinação ética e social relegava a dicotomia monarquia ou república para o limbo das coisas secun dárias. Por isso, no citado manifesto, a sua mensagem culminava num apelo directo aos trabalhadores para que não se deixassem enredar na teia daquela querela: «Que temos nós, Proletariado, que ver com essa estéril questão de forma? É uma questão de fanulia entre os membros da burguesia, nada mais.» A resposta republicana não se fez esperar, fosse em livro ou na imprensa.
Por exemplo, o jornal do grupo de Teófilo Braga e Carrilho Videira escrevia (anonimamente): «O Sr. ,Antero de Quental publicou finalmente o prometido manifesto aos eleitores. E um documento curioso e que dificilmente se acreditará que fosse escrito pelo autor das Odes Modernas. Nós tributamos a mais sincera admiração pelo Sr. Antero das Odes Modernas, e por isso custa-nos a crer que o antigo poeta revolucionário escrevesse aquele monstruoso agregado de palavras e frases, com que nada prova a favor do seu socialismo. Faz diversas afirmações, confundindo todos os grupos monárquicos e republicanos, sem apresentar prova alguma do que avança, e chamando burgueses a todos os que não pensam como ele. Que entende o Sr. Antero de Quental por burgueses? Francamente não o sabemos; pois que um grande número dos republicanos é formado pelos proletários, pelos operários que vivem do rude trabalho manual.» E, fazendo uma referência concreta à origem social do poeta e dos seus proventos financeiros, rematava: os proletários republicanos, «para o Sr. Antero de Quental, são burgueses, ao passo que ele próprio, que vive dos seus rendimentos sem trabalhar, como proprietário rico, considera-se como proletário!» e acordo com este anátema, o poeta socialista havia passado de correligionário a inimigo a bater. Em 1876, Carrilho Videira – um dos mais aguerridos activistas do republicanismo federalista – já o tinha apelidado de «grande traidor». Mas, com aquela proclamação eleitoral, os vitupérios atingiram o auge. «Os federais», explicava a Martins, «a quem a existência do socialista incomoda altamente, abriram contra mim uma campanha de insinuações muito tolas, com o fim de me demolirem no conceito dos operários, persuadidos que, demolido eu, acabaria o socialista.>> E estes ataques não se limitavam a contestar o seu pensamento – Teófilo tenta-o na sua História das Ideias Republicanas em Portugal (1880)807 -, mas desciam ao terreno da injúria, pois chegaram a afirmar que, ética e psicologicamente, ele era um «céptico»,«um bocado cínico», que andava a «desfrutar os operários», para se rir «deles com os amigos». E Antero não tinha dúvidas quanto à origem da campanha: todas as atoardas saíam do «laboratório merdoso do Teófilo». Não surpreende este choque directo entre o poeta e os republicanos-federais: estes eram os que mais íntimos contactos mantinham com o associativismo popular (lisboeta) e, no plano doutrinal, eram os mais receptivos à questão social; por outro lado, alguns deles haviam militado com os socialistas. Ora se, antes de 1871, o projecto federalista, ainda que subordinado à solução do problema social, havia seduzido Antero, a sua maior consciencialização acerca dos elos existentes entre as séries (a série económica e a série política), a fundamentação organicista do seu modelo social e a própria lição que ia recolhendo dos acontecimentos fizeram-no rever o entusiasmo federalista e compreender que a questão do regime era de somenos na transformação da vida social. O radicalismo populista daquela tendência seria ainda mais perigoso do que a do republicanismo moderado. Exigia-se, por isso, uma luta sem tréguas contra todas as formas de jacobinismo, imperativo que terá aumentado com as tentativas de unificação do movimento (1876) e com o aparecimento de textos que visavam fundamentá-lo à luz dos ditames da filosofia positivista e do cientismo em geral.
De facto, na segunda metade da década de 70, Teófilo Braga, que já gozava de grande prestígio como intelectual, lançou-se numa teorização apostada em justificar e em unificar o republicanismo português. E, se Antero era visto como o maior ideólogo da corrente socialista, não se estranha que aquele o tivesse escolhido como seu adversário principal, tanto mais que entre ambos existia uma evidente rivalidade no que respeita à liderança de um novo «poder espiri tual» emergente – o poder dos intelectuais.
Fosse em termos sociocráticos (Teófilo), fosse a partir de uma funda mentação ético-metafísica, os intelectuais, reactualizando a ideologia cívica da «república das letras», actuavam como novos deres, ao reivindicarem para si, e geralmente contra a Igreja, um novo poder espiritual, assente na razão crítica e na ciência, e que devia iluminar o poder temporaladequado às sociedades científico-industriais. Isto implicava a redução da política a uma mera arte (de aplicação), prática que, sem a luz dos grandes princípios – que só eles, qual vanguarda, poderiam fornecer -, ficaria nas mãos de uma burguesia medíocre. Porém, neste terreno, por mais antiéticas que tenha sido as suas posições, Antero e Teófilo não divergiam tanto como pensavam. E alguma da animosidade que, a partir de 1872, existiu entre ambos também não é indissociável da luta interna pela hegemonia no interior dessa «república» e do novo poder «intelectual» e «moral» (Renan). Com efeito, se o positivista e republicano criticava o poeta metafísico e socialista (que, para muitos, era o guia espiritual da geração), Antero também não poupava o «merdoso do Teófilo», aplicando -lhe, entre outros epítetos, os de «Dr. Caos»8IO e «Marat de soalheiro»
Fonte : Antero de Quental, de Fernando Catroga, Editorial Notícias





