Penso eu de que… – José Miguel Júdice – 20090612
12 Jun 2009 Deixe um Comentário
O PS tem de assumir que é um partido centrista com uma memória histórica de esquerda e agir em conformidade. Já sei, a dimensão da abstenção nas eleições de domingo tornou-as numa sondagem de má qualidade. Mas, em todo o caso, resta um facto que, pela sua dimensão e consistência, tem de ser considerado relevante: todos os partidos de esquerda que estão a governar perderam as eleições, ao passo que todos os partidos de direita que governam, com excepção da Grécia, ganharam as eleições.
Os juízes e advogados sabem que os factos são em regra objectivos, mas as interpretações nem sempre são unívocas. Por isso cada um de nós pode tentar encontrar uma explicação para isto, admitindo-se até que se defenda que cada caso é um caso e que em cada país jogou um factor especial, de tal modo diverso que será impossível deles extrair uma regra geral. Poderá ser assim, mas sinceramente parece-me improvável que – pelo menos em termos estatísticos – não haja uma explicação geral.
Arrisco uma hipótese: os governos de esquerda têm sido obrigados a concretizar políticas de direita. Não o fazem por serem masoquistas, estúpidos, traidores ou por terem enlouquecido. Fazem-no porque não há hoje alternativa, como não havia ontem. Por esse motivo, quando confrontados com a crise gravíssima que estamos a viver, a reacção dos eleitores vai claramente no sentido de preferirem a real thing, sobretudo porque os governos de esquerda que estavam a esforçar-se por colocar ordem na casa, ao depararem com a crise e a contestação sociais, optaram em regra por uma mudança na prática, moderando o reformismo, diminuindo o rigor, adiando as medidas difíceis.
Deram, portanto, uma súbita guinada; mas isso não os fez recuperar os eleitores que lutam contra as reformas, contra o rigor, contra os sacrifícios. O resultado (injusto, talvez) foi alienar eleitores à direita que deixaram de acreditar que fosse verdade o que estava a ser dito e feito no período anterior. Daí a subida do voto em partidos extremistas (à direita e à esquerda, como a Frente Nacional no Reino Unido e o Bloco de Esquerda em Portugal), partidos xenófobos (como na Holanda), partidos folclóricos (como o Partido dos Piratas na Suécia) ou partidos de contracultura (como os ecologistas em França).
Não é por isso de estranhar que assim tenha sido, numa eleição que manifestamente é aquela em que a liberdade dos votantes melhor se exprime, pela noção evidente que têm da inconsequência e irrelevância do seu voto.
Isto explica em grande parte o que ocorreu em Portugal, mas não explica tudo. O resultado português foi também produto de um factor tendencialmente estrutural e de dois factores conjunturais. O primeiro é a evolução para a formação em Portugal de um bloco radical de esquerda que, pela primeira vez, ultrapassou 20 por cento dos votos, mas que continua em progressão. Logo após as eleições de 2005 previ que assim seria, creio que de forma pioneira. Há que contar com isso e com os efeitos disso.
Os outros factores foram o efeito Paulo Rangel e o anti–efeito Vital Moreira. Em 28 de Abril, num texto intitulado “Rangel e a sua circunstância”, antecipei um sucesso político para o então líder parlamentar do PSD. A minha profecia pecou por cautela (ainda que tenha sido a única pessoa a prever que se tornasse a “coqueluche” que hoje é) e os resultados eleitorais confirmaram-me na convicção de que há que contar com ele para suceder a Manuela Ferreira Leite se o resultado nas legislativas for mau. Por si só, Rangel valeu muitos pontos percentuais, pelo menos a diferença entre uma (prevista) vitória à tangente sobre o PS e a clara vitória que ocorreu.
Pelo seu lado, Vital Moreira revelou-se um erro de casting. Surgiu fundamentalmente como uma forma de ganhar votos à esquerda: era uma espécie de Manuel Alegre viável. Só que um partido de governo não ganha votos mostrando uma linha política diferente e produtora de cacofonia, ganha-os mantendo uma coerência, mesmo que seja – como no caso de Berlusconi – a coerência da buffonnerie.
Vital foi também um erro por outra razão. Vindo de uma outra época mediática, com uma linguagem inadaptada ao tempo dos sound bites, a fazer os combates contra o seu passado e tentando demonstrar que lhe continuava essencialmente fiel, não conseguiu fazer mais do que alienar apoios à direita e provocar crispação à esquerda, sem mobilizar as bases socialistas que o não conhecem do circuito da carne assada e das missas-comícios.
A direita ganhou na Europa; não foi a esquerda que perdeu. A esquerda ideológica não ganhará nunca uma eleição na Europa, visto que não as ganha sequer na conjuntura que poderia ser-lhe mais favorável.
Agora, José Sócrates tem uns amigos a dizer que é preciso mudar de políticas e outros a afirmar que é preciso continuá-las. Pelo meu lado, aqui vai gratuitamente um conselho desinteressado: a questão não é continuar ou mudar, pois os últimos meses foram claramente tempos em que a dinâmica reformista do Governo diminuiu. Vê–se agora que a táctica não resultou. Antes de perder a dinâmica reformista, Sócrates caracoleava próximo da maioria absoluta. Depois começou a piscar o olho à esquerda, como se à direita já tivesse o terreno garantido. Criou assim um vazio, e a natureza política tem horror ao vazio.
Para ganhar as eleições do Outono, o PS tem de assumir sem estados de alma que é um partido centrista com uma memória histórica de esquerda e agir em conformidade. Deve apostar em temas como a ecologia (onde o Governo pode mostrar obra), garantir que, apesar das manifestações, o esforço reformista para salvar o Estado Social continuará, fazer a pedagogia da governabilidade e abrir-se à sociedade.
Claro que pode, pelo contrário, fazer tudo para roubar votos ao Bloco de Esquerda e para agradar a Manuel Alegre. Com isso passará a ter boa imprensa. Mas provavelmente irá perder à direita as eleições que quiser ganhar à esquerda. Penso eu de que… Advogado




