Foi um Monárquico no Abril, Francisco Sousa Tavares

“Povo português, vivemos um momento histórico como desde os dias de 1640 não se vive: é a libertação da Pátria!”

Foi um Monárquico Democrata. No dia 25 de Abril de 1974 o país conheceu-o através de imagens que ficaram célebres: do alto de uma guarita e através de um megafone foi primeiro político a falar à população que no Largo do Carmo, acompanhando as operações militares comandadas por Salgueiro Maia . Seu nome Francisco Sousa Tavares.

Aos que trabalham e sofrem, Jacinto Ferreira 1957

Aos que Trabalham e Sofrem

CAROS   PROLETÁRIOS!

Nem eu sei, ao falar-vos em que medida as minhas palavras poderão inspirar-vos confiança.
Avalio como soa ironicamente, ‘quase a troça, esta palavra — felicidade, aos ouvidos de quem, neste Mundo, sofre da triste condição proletária! Vós a procurais com ‘afinco, naturalmente, mas ides seguindo, desde há muito, caminhos errados, atrás de falsos profetas, em quem tendes confiado.

Começastes por repudiar ,Deus .e a Sua lei, di­zendo que A RELIGIÃO É O ÓPIO DOS POVOS, quando aconselha paciência e resignação aos oprimidos. Se vós me pudésseis responder, perguntar-vos-ia onde e quando foi que a religião aconselhou resigna­ção para com as injustiças sociais derivadas da falta de consciência e do escrúpulo dos patrões. Também ela alguma vez a terá recomendado para com o gatuno que nos quer levar a carteira, ou para com o perro, que procura filar-nos as canelas? Não se deve confundir os princípios cristãos com o comportamento dos que se dizem seus adeptos, e que provam, pelos seus actos, serem mais judeus do que católicos. Ao lado disto, afirmais também que A PRO­PRIEDADE é o roubo. Estou de acordo convosco em que propriedade e até a prosperidade de muitos, foi e tem sido obtida à custa de desonestidades.
Mas isso só prova que possuir é a tendência natural de todo o ‘ homem, e que, quando não se consegue alcançar a satisfação desse desejo por processos lícitos, ou a ambição incontida não se conforma com a lentidão destes processos, se recorre aos ilícitos.
Todo o homem quer possuir, para poder prover às suas necessidades, ser independente e livre. Em verdade, a propriedade seja do que for é uma condição essencial da liberdade. ‘ Só é inteiramente livre (humanamente falando) o homem que não precisa de alugar o seu trabalho. a pessoa que dentro do condicionalismo legal, faz o que quer, vai para onde quer e quando quer.
Como se consegue esta liberdade, senão pela posse de bens? E como conseguistes vós, até agora, a pro­priedade do vosso vestuário, da vossa ferramenta, do vosso mobiliário? Sem dúvida, à custa do trabalho. De facto, a propriedade é, em princípio, trabalho acumulado. E outros que conseguiram juntar o trabalho acumu­lado por pais, sogros, ‘avós, etc., puderam alargar a sua propriedade a uma  residência, a uma quinta ou herdade, a uma oficina, a um estabelecimento comer­cial.
Não desejais vós, que pouco ou nada possuis, qualquer forma de propriedade? Decerto. E isso não quer dizer que sintais desejos de roubar. O vosso abatimento deriva, exactamente, do facto de nada possuirdes de apreciável, como se infere da expressão que tantas vezes ‘usais:  uns com tanto, e outros sem nada»!

É exactamente este, o justo motivo da vossa indignação.

Muitos proprietários esquecem ou ignoram que têm uma função social a desempenhar, qual é a de auxiliar os desprotegidos e de fomentar a produção. A propriedade não é o roubo. Mas quando ela se fecha no ‘seu ‘egoísmo deixa de ser inteiramente legítima. O que é preciso, nos tempos que correm, é varrer o egoísmo, recordando a uns e ensinando a outros, os seus deveres, para se poder alcançar um equilíbrio tão necessário como urgente.
E não argumenteis com a «propriedade colectiva» dos socialistas. Isso é o mesmo que a não-propriedade porque o que pertence a todos, não é de ninguém.

Pois já o ‘vosso amor à liberdade que vos levou desamparados para as forças do dinheiro, devido à dissolução em que consentistes, das vossas antigas organizações profissionais. Quando destes pelo prejuízo, fostes à procura de defesa, e começastes por vos enfeudardes à de­mocracia que ouvíeis dizer ser o Governo do povo pelo povo. Breve vos desiludistes ao verificardes que ela era, reconhecidamente, o império das plutocracias e das oligarquias, mesmo quando, ou talvez, principal­mente quando, — se afirma socialista.

E, explorando o vosso cepticismo alguns pretendem agora atrair-vos para o comunismo, para a chamada ditadura do proletariado, que não é senão a ditadura de um partido  único, ou seja, da meia dúzia dos seus dirigentes. Digo-vos, porém, desde já todas as dita­duras, e portanto também aquela, são filhas legí­timas da democracia, ainda que esta se recuse a per­filhá-las, sob pretexto de que não se parecem com a mãe. Mas entre ela e as filhas, nota-se apenas um diferença essencial: a democracia é a tirania do nú­mero; a ditadura é a tirania do … algarismo.
Compreendo plenamente a vossa angústia. A de­mocracia deu-vos em teoria (só em teoria. . .) «liber­dade para tudo» mas tirou-vos a garantia do pão quotidiano e portanto a base da autêntica liberdade. O comunismo oferece-vos a ração diária se fordes do partido) e mais nada, porque vos priva de Moda a li­berdade. Mas a vossa inteligência afirma-vos que há-de haver uma outra ordem social em que o homem possa «possua em liberdade e com satisfação, o pão que ar­duamente, ganhou cotn o seu suor, porque isso é que r natural.

Pois   tendes    razão,   caros    proletários.

Essa ordem social, embora ‘ não instaurada em qualquer comunidade, existe, concebida pela inteligência, esclarecida à luz dos ensinamentos da história da Humanidade. É aquela que se baseia nos agrupamentos naturais do povo, especialmente na família (ordem político-administrativa) e no Sindicato (ordem económico-social). Não se trata de um sindicalismo revolucionário, com a greve geral» como arma principal, mas de uma modalidade de sindicalismo ,a , que outrora se chamou «reformista», fundado na colaboração cada vez mais necessária entre o capital e o trabalho.
É no seio dos seus organismos profissionais que a posição do trabalhador se há-de valorizar, e por meio deles, que intervirá • na administração pública e na luta pelas suas liberdades e prerrogativas humanas e sociais.

O mito da LUTA DE CLASSES, do ódio mortal entre patrões e operários, está a entrar, felizmente, no campo das efemérides históricas. Baseava-se ela, em parte, nas aquisições da CIÊN­CIA, do século passado, denunciando a luta pela vida e o triunfo do mais forte na existência dos animais. Mas a Ciência deste século já demonstrou que essa noção está longe de poder ser a regra em toda a Na­tureza, e talvez seja apenas a excepção, em vista da exuberância das associações animais, e principalmente do conhecimento das simbioses — verdadeiras afirma­ções de auxílio mútuo, com vista ao exercício das di­versas actividades vitais.
Também o Homem não pode viver isolado. Ele é um ser eminentemente social. Daí o individualismo ser um erro político que ‘já ninguém hoje defende com seriedade. O exemplo da vida nas associações animais con­diciona uma modificação na mentalidade social, tendente a transformar a luta irredutível, em colaboração in­teligente, e útil para todos. Estes três erros, entre outros, vos têm trazido divorciados de tudo o que é nacional, cristão, e mesmo profundamente humano.
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Mas já verificámos que a religião, á-parte o seu caracter sobrenatural de reguladora das nossas relações com DEUS, é a grande consolação dos que, neste Mundo, são infelizes.

Esforce-se cada pessoa, cada classe, por melhorar a sua condição, à custa de todos os meios legítimos e lícitos; mas permaneça intacta, para os mal sucedidos, para os incapazes, para os espoliados, para todas as •vítimas indefezas da maldade humana, a esperança de que na OUTRA VIDA, terão parte na reparação que lhes foi anunciada há dois mil anos, pelas bem-aventuranças enunciadas por Jesus Cristo.

Verificámos também que a propriedade, na sua essência é trabalho acumulado, ‘e fonte, de riqueza e de produção, quando cumpre inteiramente os seus deveres sociais e económicos. Verificámos, por fim, que a luta de classes é um mito, e que dentro de cada espécie de seres vivos, a associação é a regra e o auxílio mútuo domina o panorama da vida. Também o homem é naturalmente inclinado à associação e a inteligência afirma-nos, que para um fim comum, e útil a todos, devera ser Conjugados os esforços de todos.
Estou,   porém,   ouvindo   duas   objecções: E quem nos garante que no campo da colaboração, a nossa posição de mais fracos, de menos influentes, não será sacrificada à ambição da outra parte, menos es-crupulosa e mais poderosa?
E quem nos garante que a propriedade, para que nós contribuímos, acabará por reconhecer os seus deveres, e deixará de constituir um elemento de opressão para passar a apresentar-se , corno agente de pro­gresso da colectividade? Tendes razão nas vossas objecções. A garantia é a base de todos os contractos.

Donde   vos   poderá,   então,    vir   ela? Sem dúvida, do Poder, islo é, dos Governos. E para isso, não deverão ‘estes ser susceptíveis de passar para as mãos dos poderosos das forças econômicas, dos ignorantes, dos iiiau-s, ou dos incompetentes. Garantida a vossa participação na vida administra­tiva do Estado, é preciso que o Governo supremo do agregado nacional não possa ser jogado aos dados, e que à Nação naturalmente organizada, corresponda um’ Governo também natural, e naturalmente transmitido. Ora dai vós à imaginação as voltas que quizerdes, e não encontrarei» outro ‘nestas condições, que não seja o GOVERNO MONÁRQUICO.

Só o Rei que não deve o poder a nenhuma classe; que não provém de qualquer camada social: que não vai assumir funções sem estar para elas pre­parado; que. não precisa de criar amigos à custa da iniqüidade — pode ser o árbitro supremo, o vigilante da justiça, a garantia do cumprimento dos contratos, da execução das leis, da aplicação do castigo aos trans­gressores de má fé.

É por isso que nós, sendo sindicalistas e municipalistas, somos também MONÁRQUICOS.

O nosso monarquismo é mais uma consequência do que uma precedência. É também como conseqüência que nós vos convidamos a adoptá-lo. Meditai no que vos digo nesta resumida prátíca. E sede corajosos, desassombrados e inteligentes na resolução que. decerto, não deixareis de tomar. Nós não somos falsos profetas. O caminho seguro está aberto diante de vós.

Fonte  : Prédicas de um Monárquico, Jacinto Ferreira 1957

A monarquia da Esquerda

A monarquia da Esquerda

2010-02-02

Teve início a celebração dos 100 anos de implantação da República. Fala-se da promoção da igualdade de oportunidades, da meritocracia e da ética republicana de direitos e deveres, por contraponto às regalias hereditárias implícitas na ordem monárquica. Palavras bonitas mas que me deixam confuso. Se bem percebi, na convocatória de greve, o sindicato dos enfermeiros fala em direitos devidos aos licenciados. A sua contestação recebeu o apoio enfático dos líderes da autoproclamada Esquerda parlamentar. Mas isso não equivale a subscrever princípios de casta que nem os monárquicos já hoje defendem? Pensando bem, não é de espantar em quem se louva na “monarquia” cubana ou, nos piores dias, na da Coreia do Norte. Nesta deriva, PC e BE estão hoje transformados em plataformas de interesses corporativos que, sem pudor, defendem direitos afins dos nobiliárquicos, com o nascimento substituído pela obtenção da licenciatura ou da cédula sindical. Direitos que defendem com base numa lógica reaccionária de inveja primária: os outros (licenciados, neste caso) têm, nós temos de ter. Acontece que os “outros” não têm. Os “outros” que têm são, quando muito, os empregados no sector estatal. Há outros que não têm nem emprego estável, nem a remuneração inicial que reclamam. Muitos estarão desempregados, outros em empregos que a crise e a concorrência se encarregam, todos os dias, de pôr em causa. Somam 10,4% da força de trabalho, anuncia o Eurostat. Ironicamente, no mesmo dia em que o sindicato dos enfermeiros reivindica regalias a que, como de costume, chama direitos.

A cedência aos professores foi o prenúncio para as outras corporações. Entrincheiradas no sector estatal, chamaram sua à res publica, tornando-a feudo seu, na retórica como na prática, condenando os contribuintes ao estatuto de novos servos da gleba. Como em qualquer monarquia absoluta, o Estado são eles e é deles.

Obcecados com os seus interesses, pouco lhes interessa o que se passa à sua volta. Portugal à beira do abismo? Com eles, dar-se-á o passo em frente. Se fossem só eles! Se não levassem o resto de arrasto…

No meio disto tudo, tenho pena do ministro das Finanças: todos os dias lhe surgem “finanças regionais” e “Albertos Joões” (incluindo este escriba!).

albertocastro.jn@gmail.com

Fonte : http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=1484345&opiniao=Alberto%20Castro

Miguel Esteves Cardoso – Venha o Alegre

Venha o Alegre

Miguel Esteves Cardoso – 17-04-2010

Um monárquico é sempre suspeito mas é insuspeito quando se trata de eleger um Presidente da República. Apesar de nunca ter votado em eleições dessas, quis que Mário Soares ganhasse. E ele foi esplêndido. Um monárquico é sempre suspeito mas é insuspeito quando se trata de eleger um Presidente da República. Apesar de nunca ter votado em eleições dessas, quis que Mário Soares ganhasse. E ele foi esplêndido. Como um rei.

Metia-se na política mais do que um rei. Mas foi bom. Hoje, é melhor ainda. Mário Soares é o mais perfeito diabinho que já tivemos. Está sempre a fazer merda, mas a merda acaba sempre por ser a solução de uma ainda pior prisão de ventre.

O PÚBLICO de anteontem contava como Manuel Alegre conta com o apoio do PS e da esquerda. Não obstante a distinção implícita entre o PS e a esquerda, sem maiúscula, Alegre quer ser eleito por todos os portugueses que não são de direita. Incluindo bastantes que são da esquerda séria e da direita tonta. Como bipolar de ambas as coisas, digo já que vou votar em Alegre. O apelido é bom, como a campanha de Eça e Ramalho. O homem é homem e poeta. Seria perfeito se fosse homossexual. Mas a parte que lhe falta para tal coisa é igualmente aceitável.

As minhas duas filhas votaram nele. Isto convence muito. Todos os monárquicos e fadistas que conheço gostam dos versos e das letras dele. O homem é irresistível.

Alegre é a prova viva que os dois mais sábios e inteligentes portugueses que conheço – o neurologista Alexandre Castro Caldas e o historiador Vasco Pulido Valente – só não escreveram letras lindas para a Amália porque a Amália e o Alain Oulman não fizeram o trabalho de casa.

Melhor do que isso não há.

Fonte : Público

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