Reflexão – Fotos e um mendigo

Ontem fui dar uma volta, aproveitar o céu e tirar umas fotos. Até aqui é o normal que costumo partilhar, fui à Sé ao Santíssimo procurar algum conforto espiritual e pedir protecção, até aqui tudo bem … entro na igreja e vejo um mendigo de cabelos compridos sentado na igreja num dos bancos com um livro aberto e a contemplar. Fiquei extremamente impressionado, eu que ia alí pedir protecção e estava alí um homem que tem todas as razões do mundo para não ligar a Deus e não entrar numa igreja,  no entanto estava alí … é porque algo espiritual lhe consola no oceano de tristeza que é a vida dele que se nota marcada no olhar profundo e vazio dele.
Deixei de pensar em mim, pedi como crente e cristão protecção não para mim para o mendigo que eu não conhecida de lado nenhum mas que de certeza que deve viver muito mais intensamente o vazio que tem. Pedi ajuda e senti uma impotência e um vazio enorme aliado a uma tristeza que não consigo explicar, deixei de tirar fotos naquele dia … a última foi a do sino da Sé.
Aquele homem deu-me uma grande lição, por vezes temos períodos de pouca fé e por vezes há quem cague simplesmente tomando uma atitude “altenativa” de dizer que não acredita em nada. Eu tenho as minhas razões para acreditar, aquele pobre homem com as calças sujas e rotas com o cabelo comprido colado de não lavar … tem as suas razões de acreditar em Deus. Não estava alí a apanhar sombra … o Livro estava com ele, muitos santos foram reconhecidos depois de vidas semelhantes a este mendigo.
Há muitos santos neste mundo sem altar e sem reconhecimento, há muitas bestas com altares e paraísos capitalistas que os tornam com a sensação de Imortalidade mas … um dia acabam igual ao mendigo.
A lição que aprendi é simples, não importa ser rico de posses se no fundo somos pobre de espírito. De nada serve o dinheiro quando não se é feliz.
Fala-se muito no gasto pouco regulado dos subsídios de desemprego, este pobre homem não o tem e nem aparece nas estatísticas que só reflectem os inscritos no Instituto de Emprego. Não é o primeiro caso de sem-abrigo que passa pelas mãos da minha família, já ajudámos alguns … um acabou por morrer de cancro sem tratamento e outros ainda andam por aí. É muito fácil apontar o dedo e dizer  ”vai trabalhar !” para quem já não tem auto-estima, para quem muitas das vezes a família virou-lhes as costas, para quem não tem privacidade que todos queremos, para quem não tem condições de ir a uma entrevista de emprego minimamente bem vestido e lavado. Isto é ser Cristão e Católico, não é ir à missa aos Domingos comungar e depois mal se sai da porta a palavra de Jesus e Deus vai para o caixote de lixo.
Ser Cristão é praticar a Caridade, isto ouvi no Domingo na missa … alguém a pratica ?

Salvo erro há muito pouco tempo o príncipe William de Inglaterra passou uma noite com os sem-abrigo em Londres, foi quase atropelado por um camião de lixo. Não podemos pensar que esta realidade não existe, se queremos que a nossa Causa seja ouvida ela tem de ser também o reflexo das preocupações do nosso Povo. Povo que vai desde o mendigo ao empresário, Povo que  vai do mais rico ao mais pobre.

Rui Monteiro

31 da Armada – José Saramago: um Senhor inesquecível

Tinha um olho virado para a realidade e outro para o sonho.

A última vez que conversámos foi a 5 de Fevereiro do ano passado, durante um almoço de homenagem da Câmara de Lisboa a Jorge Sampaio.

“Então como vão esses monárquicos de esquerda?”, perguntou-me com humor. (Sim, sim, ele recordava-se muito bem que em 1989 tinha sido por iniciativa – na altura amplamente divulgada - dos monárquicos do “Movimento Alfacinha”, que se tinham aberto as portas pela primeira vez em Portugal para uma  coligação autárquica entre socialistas e comunistas).

José Saramago era um Senhor: eleito então para Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, passadas duas reuniões plenárias bateu com a porta, tal era o “nível” cultural e oratório dos deputados municipais. (E quem teve que aturar aquilo até 1994 foi o saudoso João Amaral).

Cometeu pecados durante a sua passagem pelo “Diário de Notícias” nos dias alucinantes de 1975? Claro que sim. Mas os Durão Barroso dessa época também pecaram à farta e  a alma portuguesa é generosa e soube também perdoar-lhes.

José Saramago, comunista, recebeu das mãos do Rei da Suécia o mais alto galardão da literatura mundial. Indignado com as instituições e os filhos desta 3ª República, encontrou abrigo no Reino de Espanha, cujas instituições nunca criticou.

Para a nossa memória colectiva, ficam as suas obras literárias mas também a sua irreverência política.

Obrigado José Saramago!

Fonte : Luís Coimbra

Congresso da Causa Real em Viseu – Discurso de Rui Monteiro

Sr. Presidente Dr. Paulo Teixeira Pinto
Ilustres Congressistas
Portugueses

Ao longo de quase 200 anos, desde a instauração da Monarquia Constitucional passando pela revolta da Rotunda chegando até hoje, o sistema político foi sempre definido à Esquerda e à Direita. Durante este período uma parte da direita esteve por razões históricas ligada à Causa Monárquica, e no entanto apesar do esvaziamento político provocado pelo Estado Novo, a Esquerda teve sempre a sua componente monárquica mesmo que por vezes tenha sido esquecida.
Alguns dos mais ilustres políticos da nossa Pátria destacaram-se em Monarquia antes mesmo da criação de partidos de esquerda  monárquicos como  por exemplo : Partido Socialista Português, ou mesmo o Partido Regenerador. Ilustres portugueses como Fernandes Tomaz, José Estevão e Passos Manuel originários da extrema-esquerda monárquica nunca colocaram em causa a sua Rainha ou mesmo o regime. Hoje são injustamente reclamados pelos republicanos como exemplos de proto-republicanismo, como se uma amnésia propositada fosse incutida de modo a ignorar que fazem parte do nosso DNA  ideológico-político.
Quando da criação em 1875 do Partido Socialista Português de Antero de Quental e Oliveira Martins, este não era de modo nenhum republicano, rejeitava o anarquismo preocupando-se mais com as questões do proletariado do que com a questão do regime. Antero de Quental deixou ferretado em muitos lugares o seu horror pela “fantasia republicana”, como lhe chamava em carta a Oliveira Martins sobre a revolução em Espanha. Por declarar “raça pérfida” foi declarado traidor pelas hostes republicanas inspiradas por Teófilo de Braga.
Este Socialismo inspirado por Proudhon também na mesma altura em França tinha os seus seguidores preocupados com os problemas da economia moderna e da filosofia da história, onde se juntavam escritores monárquicos e sindicalistas. Tal como Proudhon Antero de Quental era um mestre da contra-revolução. Manter o seu nome na tabuleta de um centro republicano, é vergonhoso testemunho da mais rotunda pedantesca ignorância. Como ele mesmo dizia “a nossa república é de garotos”. Oliveira Martins também não escondia o seu monarquismo, em 1885 em eleições para deputado pelo Porto respondia “E quem lhes disse aos senhores, que sou republicano ? Não sou, sou socialista … “ e acrescentava “República, anarquia e Castela !”.

É  óbvia a perseguição feita pelo Partido Republicano Português ao Partido Socialista Português, no entanto o PSP não deixava de respeitar as regras da Democracia ao concorrer às eleições e elegendo os seus deputados.
Em 1894 já existiam contactos entre o PSP e o Partido Regenerador de Hintze Ribeiro, e depois do Regicídio D.Manuel II continuou esses mesmos contactos dizendo mesmo  que “era o único partido que melhor representava a vontade do Povo”.

Exemplo disso é a carta de El Rei a Venceslau Lima : “O PSP encontra-se desorganizado e dividido desde 1891. O Partido Republicano tem-lhe feito uma guerra de morte e arranjou sempre as coisas de maneira que o partido se encontrasse em desacordo (…) O Partido Socialista encontra-se há poucos dias completamente unido : a pessoa que conseguiu isso é Alfredo Aquiles Monte Verde (…) Eu tenho–me interessado muito há bastante tempo por essa questão, que tenho vindo seguindo e ajudando.” Os contactos para formação do governo foram feitos tendo Monte Verde reconhecido e agradecido por escrito o grande empenho de El-Rei D.Manuel II para com os “seus” operários.

Como diria por carta em 1911 o Ajudante de Campo Lobo Vasconcelos a El-Rei D.Manuel II :
“Vossa Majestade, segundo a sua Religião, é socialista, mas socialista “prático”, que procura dizer o bem e não o “utópico” que acaba em anarquia. Amar o próximo como nós próprios, digo mesmo, é um dos seus mandamentos …”

Depois de 1910 os Socialistas continuam a ser perseguidos mesmo em plena República, Carlos Malheiro Dias em 1911 diz mesmo “os proletariados acusam a república de ter mandado fuzilar os operários grevista de Setúbal como nunca se tinha feito no tempo da monarquia”.

Alguns republicanos vendo o descalabro da republica tornaram-se monárquicos de esquerda  como o caso do Grande Gago Coutinho que dizia já na fase final da sua vida o seguinte :
Nunca me meti na política, mas, até 1914, julguei que o regime República seria o melhor, por terem falido os políticos que aconselhavam os reis. A seguir às revoluções da República, que provaram também a falência dos seus homens, passei a considerar preferível um regime monárquico constitucional, como o inglês… mas mais socialista do que trabalhista. Este está arrebentando a Inglaterra, e se a rainha Vitória voltasse a este mundo, fugiria logo para outro… Almirante Gago Coutinho”

Como é sabido o PSP como todos os outros partidos foram ilegalizados em 1933 em pleno Estado Novo. Apesar desta claustrofobia ditatorial não deixou de haver quem defendesse o ideal monárquico e a democracia. A pesar da forte presença de monárquicos afectos ao regime  de Salazar também os houve do outro lado da barricada lutando pela Democracia e pela Liberdade. Exemplo disso era o grupo “Monárquicos Independentes de Lisboa” onde militavam Gonçalo Ribeiro Teles, Francisco Sousa Tavares, Fernando Amado, Rodrigo Costa Félix, Carlos Camossa.  Alguns participaram em acções revolucionárias da “Convergência Monárquica”, mais tarde participaram em vários movimentos nas eleições de 1969 como a CEUD e o CEM.
Foi no dia 25 de Abril de 1974 que o país viu Francisco Sousa Tavares em cima de uma Chaimite com um megafone  : “Povo português, vivemos um momento histórico como desde os dias de 1640 não se vive : é a libertação da Pátria”.

Com a Liberdade os monárquicos democratas de esquerda não deixaram de participar na Democracia, Francisco Sousa Tavares e sua esposa Sofia Melo Breyner foram deputados pelo Partido Socialista. Em 1985 Gonçalo Ribeiro Teles  fez uma aliança com o Partido Socialista tendo o PPM três deputados na bancada Socialista na Assembleia da República. Já em 1969 Gonçalo Ribeiro Teles tinha concorrido na lista da CEUD de Mário Soares às eleições na época de Marcelo Caetano.
Gonçalo Ribeiro Teles em 1973, com Barrilaro Ruas, consegue que o 3.º Congresso da Oposição se passe a denominar 3º Congresso da Oposição Democrática, em vez da recôndita fórmula “republicana”.

A história mostra-nos os inúmeros exemplos de uma Esquerda Monárquica que nunca esqueceu os ideais de Liberdade e Democracia. É por isto injusto dizer que a Causa Monárquica ao logo destes quase 200 anos seja um activo exclusivo da direita.

Sem dúvida que nenhum dos ideais da esquerda democrática actual em Portugal e nos outros países democráticos põem em causa o regime monárquico :

-  rejeitar a revolução e outras ideias tradicionais do marxismo como a luta de classes, mas exigência de uma revolução económica e social para combater os problemas que atacam a nossa sociedade nesta crise económica sem precedentes.
- o reformismo é uma maneira possível de atingir o socialismo
- regulação estatal e da criação de programas que diminuem ou eliminem as injustiças sociais inerentes ao capitalismo
- direitos humanos e preservação ambiental
- laicidade do Estado

Tudo isto não põe em causa a imparcialidade do Chefe de Estado,  a monarquia não é incompatível com a democracia pluralista, da esquerda à direita; o  alto cargo não-eleito que é a Chefia do Estado, aparte os juízes – que não é só herdada por sucessão mas também preparado durante a educação e crescimento do sucessor, para servir o interesse nacional. Processo definido na Constituição e fiscalizado pelo Parlamento. Precisamos de bons chefes de estado, dispostos a sacrificar a sua vida em prol do Bem Comum. Os governantes, hoje como ontem, gostam dos palácios mas não gostam da rua onde se vê a pobreza e o analfabetismo que não ajudam a mudar. E, na sua maioria, não estão preparados para ocupar nem uma coisa nem outra. Logo, vamos avançando por iniciativas quase individuais ou de pequenos grupos, que são os heróis de todos os dias.

Temos os exemplos de países monárquicos constitucionais onde os partidos de esquerda convivem bem com a direita. Exemplos do PSOE em Espanha, os Trabalhistas em Inglaterra ou mesmo os partidos sociais-democratas nórdicos. No geral os partidos de esquerda europeus de países monárquicos preferem um Rei pois este defende melhor os ideais republicanos.

Fala-se na Revisão Constitucional e como tal a questão da legitimação do regime é lícita, mas para que tal seja possível através de referendo tanto é valido o contributo da direita como o contributo da esquerda. Como nas eleições presidenciais o voto é obtido ao centro e como tal num referendo é esse o caminho que tem que ser seguido para não extremar posições.

Está na altura de retirar a Causa Monárquica do gueto ao qual ficou confinado por interesse político de alguns grupos ou mesmo pelos meios de informação. Está na altura daqueles que são de esquerda e que acreditam num regime legítimo como o monárquico deixarem de ter medo e complexos de o serem para que todos possamos ajudar na transição para uma democracia monárquica e na aclamação de D Duarte II.

“Este é o tempo …
Esta é a hora !”

Rui  Monteiro

Oliveira Martins

Historiador, economista, antropólogo, monárquico,crítico social e político, histórico do Partido Socialista Português, a sua acção e os seus trabalhos suscitaram controvérsia e tiveram considerável influência, não apenas em historiadores, críticos e literatos do seu tempo e do século XX, mas na própria vida política portuguesa contemporânea.

Em 1885 em eleições para deputado pelo Porto respondia “E quem lhes disse aos senhores, que sou republicano ? Não sou, sou socialista … “ e acrescentava

“República, anarquia e Castela !”.

Ler a biografia no Realistas AQUI :

A REPÚBLICA CONTRA O SOCIALISMO – Bosquejo de um conflito secular (1875-1974)

A REPÚBLICA CONTRA O SOCIALISMO

Bosquejo de um conflito secular (1875-1974)

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«O pior que nos pode acontecer é sermos amanhã república .».
. ANTERO DE QUEMtAL, Cartas

(9 de Setembro de 2008)

Ainda a propósito do recém criado Think Tank Socialista, o Res Publica, e o facto de actualmente se passar a ideia de que o socialismo fundou a Republica, ou vice versa, convém lembrar a realidade nas palavras de J. Mendes Rosa..

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A REPÚBLICA CONTRA O SOCIALISMO

Bosquejo de um conflito secular (1875-1974)

«O pior que nos pode acontecer é sermos amanhã república .».
. ANTERO DE QUEMtAL, Cartas

Numa época em que se pretende enunciar os princípios republicanos e socialistas como sendo partes naturalmente integrantes do mesmo edifício político (com manifesto abuso, diga-se desde já), urge como nunca explanar em traços necessariamente céleres, condenados à aridez da simples enunciação, o que foi o desavindo percurso perpetrado por cada dessas escolas ideológicas nascidas sob o úbere pendão das ideias filosôficas posteriores ao ultimo quartel do século XVIII mas que não são – longe disso- defeníveis uma pela outra. ” Em Portugal» republicanismo e socialismo entram de mãos dadas, embora tardiamente,- com um século de atraso em relação à Europa. Os mais directos responsáveis pela sua introdução no tecido intelectual português, assinalaram o feito com um ciclo de conferências que fícou exactamente conhecido por Conferências do Casino ( 1871).

Antero, o maior vulto dessa novel escola política (socialista e republicana), secundado por alguns mais, cedo se aperceberia da natureza autónoma do ideal do regime e a do sistema político-económico almejado, e bem assim da necessidade de separar as águas adstritas a um e a outro.

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Teófilo Braga

Assim, a clivagem república/socialismo pode ser consubstanciada na disjunção Teófilo Braga/Antero de Quental e verifica-se «a partir do momento em que a Geração setecentista divide o seu caudal, separando-se em dois leitos distintos, o do Partido Socialista (fundado em 1875) e o do Partido Republicano (fundado um ano depois)’»

Ê assim que ainda mal nado, o socialismo português se divorcia do republicanismo e enceta uma clara aproximação ao até aí combatido regime monárquico.

Esse divórcio era ditado pelo mesmo Àntero em carta dirigida a Oliveira Martins:

«A fantasia republicana está desfeita de todo o nosso grupo socialista e dou por isso graças aos deuses.É necessário, de toda a necessidade, que quebremos com os republicanos e eu estou resolvido a faze-lo»(2).

Logo a seguir, declarava a sua «completa isenção «do movimento republicano»(3). Em 1885, o seu descrédito nos decantados benefícios da instituição republicana para suprimento das minguas económicas e sociais do País, vai mais longe:

« (…) Está iminente a bancarrota e uma tremenda críse social; a proclamação da Republica não só não remediaria esses grandes males (…), mas trazia uma complicação e elemento de desordem, como ainda em 1873 se viu em Espanha»(4)

Oliveira Martins, plumitivo de credo monárquico, infatigável teórico da conciliação da doutrina [e] robustecimento do Poder Real com um Socialismo de Estado (5) ,seria a mais bela expressão dessa nova aliança entre o ideário socialista temperado e o regime sete vezes secular. Mesmo depois de ter passado fugazmente pelas esferas do poder, onde o seu sonho de reconstrução nacional esbarrou no imobilismo de um constitucionalismo aferrado e inerte, não cedia a confusões, depois de namorado pelos republicanos para seu deputado pelo Porto:

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Oliveira Martins

- « E quem lhes disse aos senhores, que sou republicano? Não sou, sou socialista..» E acrescentava: «República,anarquia e Castela»(6).

E se assim era no plano intelectual, também na esfera da acção política se verificou a dissensão, acrescida da perseguição que os republicanos começaram a. mover aos movimentos socialistas e sindicais. Em 1885, o Partido dos Operários Socialistas de Portugal acha-se ferido de morte, e mau grado Azedo Gneco tivesse fundado o Partido Socialista Português (1895), e tendo adoptado por estratégia de sobrevivência uma aproximação aos republicanos em 1901 , depois de controvérsia (Luís Figueiredo opõs-se terminantemente e o rompimento definitivo da-se em 1907), o sucesso da táctica era impedido por «uma forte desconfiança.em relação ao Partido Republicano», como escreve António Ventura (7).

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Azedo Gneco discursa

Com a fundação do Partido dos Operários Socialistas de PortugaL encrudesce e ganha contornos inauditos de animadversão o combate aberto que o Partido Republicano move aos socialistas. Estes conhecerão um único e fervoroso coadjuvante: El-Rei-D. Manuel II.

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D. Manuel II

O trecho da carta que de seguida expomos .(dirigida pelo monarca a Venceslau de Lima cm 15.6.1909), é a esse respeito bastante esclarecedora:

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Venceslau de Lima

«(..,) o Partido Socialista encontra-se desorganizado e dividido em fracções desde 1891. O Partido Republicano tem-lhe feito uma guerra de morte e arranjou sempre coisas de maneira que o partido se encontrasse sempre em desacordo („.). O Partido Socialista encontra-se há poucos dias completamentc unido: a pessoa que conseguiu isso é o Alfredo Aquiles Monteverde (…). Eu tenho-me interessado muito há já bastante tempo por essa questão, que tenho vindo seguindo e ajudando».

Feitas as diligencias régias para que o Partido Socialista ganhasse uma compleição de poder, estudado o respectivo programa enviado por Gneco. Monte verde dirige-se destarte ao Rei: «Venho agradecer reconhecidíssimo o bilhete e a carta que V.M. houve por bem enviar-me e o interesse que V.M. continua a tomar pelos seus operários. Mal sabem eles do alto patrocínio que tão eficazmente os está auxiliando neste momento». (8)

Após o advento da República, o Partido Socialista, no seu “Manifesto”, perfila-se como oposição e não tem pejo em proclamar.

«O Partido Socialista entende que deve ser lançada aos actuais dirigentes e aos elementos mais preponderantes da República Portuguesa a inteira responsabilidade por todas as perturbações de ordem ultimamente havidas e por todas as que parecem prestes a haver …»(9).

A repressão republicana contra o operariado, revestiu-se de contornos dignos da mais acerba dás tiranias. Em 1912, na Greve Geral de Lisboa, os grevistas foram duramente reprimidos e submetidos a degradantes prisões. Um ano depois o democrático (!) «governo de Afonso Costa proibiu o cortejo e o comício do 1º de Maio…» (10)

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Afonso Costa

Meses antes, o Anti-Cristo de Seia (o epíteto é do seu ex-colega de partido Cunha e Costa) assinava no jornal “O Mundo” um artigo em que demonstrava descrer no futuro do socialismo e bem assim no movimento das ciasses operárias e sindicatos. (11)

E dando vazante à ideia de enfrear o operariado, conta Carlos Maiheiro Dias que os proletários acusaram a «república de ter mandado fuzilar os operários grevistas de Setúbal como nunca-se tinha feito rto tempo da monarquia: (…) de decretar uma lei eleitoral mais reaccionária que qualquer das que estiveram em vigor no antigo regime» (12).

Em 1914 é fundada a União Operária Nacional, que o governo de então logo se apressou a extinguir, sendo reorganizada em 1917. Em Maio desse ano, como protesto contra a falta de pão em Lisboa, quatro milhares de pessoas manifestaram-se no Rossio e a Guarda Nacional Republicana recebeu ordens governamentais para dispersar os civis pela violência, O confronto saldou-se em dezenas de mortos e 547 prisões. (13)
Mas o conflito entre republicanos e socialistas, não se confinaria à I República (onde de resto, nas diversas legislaturas, apenas foi eleito um máximo de dois deputados socialistas, o equivalente a deputados miguelistas). Na II República foi o que se sabe; o socialismo seria banido oficialmente do solo português e o sindicalismo decretado, tal como na I República. adverso ao Estado» Só após o 25 de Abril os socialistas se puderam organizar livremente, como queria 65 anos antes, o Rei D. Manuel II.

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Por este apontamento poderemos ver que socialismo e república, andaram desavindos durante mais de cem anos. e só muito recentemente se reconciliaram…

J. Mendes Rosa

notas

1-João Medina “Antero e Teófilo”

2- Cartas inéditas de Antero de Quental a Oliveira Martins,1, Univ. de Coimbra, Coimbra 1931, pp 17-18

3-Ibiden

4- Carta a S. Costa Botelho de 1-VIII-1885, “Cartas II”, p 746

Fonte : Somos Portugueses

Monárquico e de Esquerda

Sou uma pessoa de esquerda, sempre me preocupei com os mais necessitados, não sou utópico e não sou marxista porque sei que a sociedade sempre vai ter classes infelizmente. Penso que o Estado deve ter um papel determinante na economia e nas políticas da saúde, da educação e da segurança social. Sou uma pessoa que se considera de centro esquerda ou simpatizante do Socialismo Democrático. Como tal quando mais novo pensei que o partido que estava mais de acordo era o Partido Socialista. Quando me filiei no PS achei que o ser monárquico não colidia com o facto de ser socialista, todos os meus camaradas me diziam que não tinha nada a ver era só uma questão de regime. Votei em dois presidentes da república : Sampaio ( contra Cavaco ) e Manuel Alegre. Hoje depois de ver o que o meu partido fez ao Manuel Alegre nas eleições presidenciais decidi nunca mais votar em presidenciais.

Há pouco tempo encontrei na Declaração de Princípios o 20º artigo onde diz que o PS é um partido republicano. Eu não sou republicano e nem o socialismo é o sinónimo de republica.
Será que lutar por um regime monárquico significa não ser de esquerda ? porquê ? Exigir a republica é ser democrata ?
O Rei em princípio representará melhor a nossa Pátria do que um presidente, pelo menos é apartidário e não será consequentemente mais democrata ? Um Rei ao lutar pelo bem estar do seu povo também não poderá lutar pelos direitos dos mais necessitados ? Tendo um Estado “controlador” não é mais fácil defender a marca Portugal e os interesses da Pátria ?
Pensar que todos têm que ter os mesmos previlégios é ser contra ter um Rei, porque razão ? um presidente não é mais previligiado do que os outros ? Não seria melhor ter alguém lá permanentemente ? Sou contra os milhões que se gastam nas campanhas presidenciais, são um atentado aos mais pobres … não é isto ser de esquerda ?

Rui Monteiro

Luis de Magalhães – filho de José Estevão

Arquivo de Miguel Paiva Couceiro

Nome: Luís Cipriano Coelho de Magalhães
Nascimento: 13-9-1859, Lisboa
Morte: 14-12-1935, Porto

Importante agente cultural de fins do século XIX e princípios do século XX, nascido a 13 de Setembro de 1859, em Lisboa, e falecido a 14 de Dezembro de 1935, no Porto, Luís Cipriano Coelho de Magalhães foi um elemento de ligação entre as gerações ditas de 70 e 90, ilustrando, na sua obra poética, ficcional e ensaística a transição do Realismo-Naturalismo para as correntes finisseculares do Neogarretismo.Primeiro filho do político liberal José Estêvão, matricula-se em Direito na Universidade de Coimbra, em 1877, cidade onde funda, três anos depois, com o seu amigo António Feijó, a Revista Científica e Literária, de orientação positivista. No mesmo ano, publica a sua estreia poética, Primeiros Versos e, no ano seguinte, o poemeto Navegações, no contexto da comemoração do centenário da morte de Camões. Em 1882, conclui a formatura em Direito. Em 1884, publica o volume de poesias Odes e Canções, prefaciado por Oliveira Martins. Em 1885, principia a sua vida política, ingressando no Partido Progressista, ao mesmo tempo que inicia a sua colaboração como articulista no jornal A Província, de Oliveira Martins. Em 1886, publica o romance realista-naturalista O Brasileiro Soares, prefaciado por Eça de Queirós, seu grande amigo. A partir de 1889, torna-se secretário e colaborador da Revista de Portugal, dirigida pelo mesmo. Em 1890, no rescaldo do Ultimato inglês, contribui para a fundação da efémera Liga Patriótica do Norte, a que Antero de Quental acederia a presidir, e assina uma série de artigos, em A Província e em vários outros jornais, onde interpreta o Ultimato à luz da teoria da decadência da nação portuguesa, que, moribunda, teria neste acontecimento traumático a oportunidade de ressurgir e de se reabilitar, mediante o regresso às suas tradições. Em 1892, aceita o cargo de governador civil de Aveiro. É o organizador do In Memoriam de Antero de Quental, publicado em 1896. Após a morte de Eça de Queirós, em 1900, assume a responsabilidade da edição da quase totalidade da sua obra póstuma. Em 1901, ingressa no Partido Regenerador-Liberal de João Franco. Com a subida deste ao poder, em 1906, Luís de Magalhães toma posse do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, de que se demitirá no ano seguinte. Em 1908, publica o seu último livro de poesias, Cantos do Estio e do Outono. Quando, em 1919, a monarquia é proclamada no Norte do país por Paiva Couceiro, Luís de Magalhães é convidado para ministro dos Negócios Estrangeiros. Fracassada a tentativa de restauração da monarquia, é preso e julgado, depondo a seu favor personalidades destacadas de vários quadrantes políticos.

Bibliografia: Primeiros Versos, 1880 (poesia); Navegações, 1881 (poema); Odes e Canções, 1884 (poesia); O Brasileiro Soares, 1886 (romance); Notas e Impressões, 1890 (ensaio); D. Sebastião, 1898 (poema); Cantos do Estio e do Outono, 1908 (poesia)

Fonte : Infopédia, http://www.infopedia.pt/$luis-de-magalhaes

Museu do Mar Rei D. Carlos: Conferência evocativa de Gago Coutinho

Fonte : Blog Gago Countinho

José Estevão

«O sr.José Estevão respondendo ao Sr.Derramado disse, que das lanternas dos jacobinos não tinha medo, das forcas dos absolutistas algum receio tinha.»

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