31 da Armada – José Saramago: um Senhor inesquecível

Tinha um olho virado para a realidade e outro para o sonho.

A última vez que conversámos foi a 5 de Fevereiro do ano passado, durante um almoço de homenagem da Câmara de Lisboa a Jorge Sampaio.

“Então como vão esses monárquicos de esquerda?”, perguntou-me com humor. (Sim, sim, ele recordava-se muito bem que em 1989 tinha sido por iniciativa – na altura amplamente divulgada - dos monárquicos do “Movimento Alfacinha”, que se tinham aberto as portas pela primeira vez em Portugal para uma  coligação autárquica entre socialistas e comunistas).

José Saramago era um Senhor: eleito então para Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, passadas duas reuniões plenárias bateu com a porta, tal era o “nível” cultural e oratório dos deputados municipais. (E quem teve que aturar aquilo até 1994 foi o saudoso João Amaral).

Cometeu pecados durante a sua passagem pelo “Diário de Notícias” nos dias alucinantes de 1975? Claro que sim. Mas os Durão Barroso dessa época também pecaram à farta e  a alma portuguesa é generosa e soube também perdoar-lhes.

José Saramago, comunista, recebeu das mãos do Rei da Suécia o mais alto galardão da literatura mundial. Indignado com as instituições e os filhos desta 3ª República, encontrou abrigo no Reino de Espanha, cujas instituições nunca criticou.

Para a nossa memória colectiva, ficam as suas obras literárias mas também a sua irreverência política.

Obrigado José Saramago!

Fonte : Luís Coimbra

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