Realistas – José Luís Nunes

Nunes, José Luís do Amaral (1941-2003) – Porto, 1969, CEUD – Nasceu na freguesia do Bonfim, Porto, a 2 de Abril de 1941 e faleceu em 10 de Setembro de 2003. Depois de frequcntar a Universidade de Coimbra, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Em ambas as universidades, foi dirigente de associações de estudantes, designadamente foi secretário-geral da RIA, e colaborou em diversas publicações, como Via Latina e O Tempo e o Modo. Foi membro da comissão política do Partido Socialista e deputado à Assembléia Constituinte e, depois, à Assembleia  da República, nas II,III,IV e V Legislaturas.

Começou a sua actividade política bem antes da revolução de Abril de 1974, “onde se destacou no movimento de oposição ao regime fascista”. “Permanecerá na memória da democracia portuguesa, designadamente, o papel activo que desempenhou nos movimentos de contestação estudantis de 1962, em Coimbra, e de 1965, em Lisboa, os esforços que colocou na dinamização da Oposição Democrática, tendo sido candidato pela CEUD às legislativas de 1969″.

O PS recorda também a sua “coragem cívica e pessoal demonstrada na defesa, enquanto advogado, de diversos presos políticos no tristemente célebre Tribunal Plenário, tendo inclusivamente patrocinado, juntamente com Abranches Ferrão e Luís Saias, os familiares do general Humberto Delgado nos processos subsequentes ao seu assassinato pela PIDE”.

“Já depois do advento da democracia, assumiu cargos de enorme relevo, quer na esfera do Estado, quer enquanto dirigente do PS, de que se realçam os de deputado à Assembleia Constituinte, deputado à Assembleia da República, vice-presidente da Assembleia da República e de presidente do grupo parlamentar do PS”.

O Secretariado Nacional do PS aprovou um voto de “profundo pesar pelo falecimento de um dos seus militantes mais ilustres, apresentando sentidas condolências aos seus familiares e amigos”.

Fonte : Wikipédia, Público

Entrevista com o Marquês de Fronteira


— Senhor Marquês de Fronteira, diga-me por favor o seu nome completo, e de quem é filho.

— O meu nome completo é Fernando José Fernandes Costa Mascarenhas. O meu pai chamava-se Fernando Penalva Mascarenhas e a minha mãe chama-se Maria Margarida Canavarro Menezes Fernandes Costa. Sou o representante das Casas de Fronteira, Alorna, Torre e Távora entre várias outras.

— Onde nasceu, e quando?

—  Nasci em Lisboa, numa casa de saúde que havia na Avenida da República, no dia 17 de Abril de 1945.

— Quem foi o primeiro marquês de Fronteira, e como é que se notabilizou?

-  O primeiro marquês de Fronteira foi Dom João de Mascarenhas, o edificador desta casa. Recebeu o título em 1670, dado por Dom Pedro II, ainda regente. O pai era o conde da Torre, que foi um título dado por Filipe III, e o filho acumulou os dois títulos.

— Sente alguma relação especial com ele, ou com outros dos seus antepassados?

-  Diz-me muito o facto de ele ter construído esta casa, que eu conheço muito bem, não só ao nível óbvio, porque qualquer pessoa conhece bem a sua casa, mas a um nível mais profundo, porque ela tem sido para mim um tema de estudo e de investigação de alguns anos a esta parte. É uma casa que me fascina, e pela qual eu sinto uma afinidade especial, como sinto pelo primeiro marquês de Fronteira, que a edificou. Uma antepassada minha, de outro ramo da família, por quem eu também sinto uma simpatia e um interesse especial é a marquesa de Alorna, minha quinta avó, que foi uma mulher com um temperamento certamente muito difícil, o meu trisavô nas suas memórias queixa-se um boca-dinho das suas relações com a avó, mas ao mesmo tempo foi também uma mulher interessantíssima. Patrocinou vários salões literários como toda a gente sabe, inclusivamente aqui no palácio. Foi exilada por «sugestão» do Pina Manique, enfim, foram as chamadas «desintendências com o Intendente», que tiveram a ver com a criação da «Sociedade da Rosa». Não há assim muitas mulheres que tenham
sido exiladas «por direito próprio», e até lhe posso contar um episódio engraçado: ela estava exilada em Londres, quando correu por lá o boato de que o rei, que era já Dom João VI, a perdoaria, e a autorizaria a regressar a Portugal, e ela antes de ter a confirmação dessa notícia meteu-se num navio, veio para Lisboa, e foi recambiada no dia seguinte no mesmo navio, porque de facto era só um boato, mas está a ver, era uma pessoa muito impulsiva, e eu acho-lhe muita graça.

—  O Senhor Marquês ficou famoso pela vida boêmia que levou na sua juventude. E verdade?

— Não, esse foi o meu pai. Ele e o meu tio Antônio é que na sua juventude freqüentaram muito a noite lisboeta.

—  E que estudos é que fez, Senhor Marquês de Fronteira?

—  Sou licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa, e depois dei aulas na Universidade de Évora durante oito anos.

— Senhor Marquês, quais são os seus interesses culturais?

—  Olhe, evoluíram um pouco com o decorrer dos anos. Comecei por me interessar pela pintura e depois pela música; a arquitectura é uma coisa que ainda hoje me interessa muitíssimo, e a poesia, desde muito novo e ao longo da vida me tem vindo a interessar e a fascinar.

— Algum poeta em especial?

—  Bom, eu acho que Portugal é um país de poetas, não me parece que exista nenhuma outra área em que tenhamos um patrimônio tão rico, embora haja muito boa arquitectura, alguma boa pintura, alguma boa música, mas nada que se compare com a poesia. Há nomes que são de facto um pouco incontornáveis: Camões, Fernando Pessoa, mas também gosto do Mário de Sá Carneiro, do Manuel Bandeira, descobri há pouco tempo um poeta brasileiro, o Ivan Junqueira, que é também um poeta extraordinário da língua portuguesa. Fui um grande leitor de ficção científica, e ainda hoje gosto. Não sou um grande apreciador do romance português, nem sequer do Eça, para dizer a verdade, embora lhe reconheça o mérito. O Eça deixou–nos descrições magníficas da sociedade lisboeta, mas eu não sou de facto um apaixonado dos seus romances. No que diz respeito aos nossos romancistas contemporâneos, creio que ultimamente se tornaram de tal forma intelectuais que francamente, a maioria das vezes não tenho paciência para os ler. Prefiro a poesia, que é uma forma de expressão extremamente contida e onde o jogo das palavras faz todo o sentido para mim. Eu entendo que um romance tem de ter uma trama, uma história, e tem de ser empolgante. Caso contrário leio vinte ou trinta páginas e ponho de lado. Não leio romances por obrigação, e portanto não leio romances chatos.

—  Senhor Marquês, quer explicar um bocadi-nho o que é a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna? Eu sei que foi o senhor que a criou, sei que doou uma grande parte da sua fortuna…

— Sim, doei a grande maioria dos meus bens à Fundação, fiquei com muito pouco, embora continue a ter fama de ser uma pessoa rica, e ainda apareça às vezes na revista Fortuna como o detentor de uma das maiores fortunas de Portugal, que é uma coisa que eu devo dizer que me irrita um bocado, porque eu nem sequer era assim tão rico, mesmo antes de ter doado os meus bens à Fundação, pelo menos comparado com outras pessoas. Não quer dizer que fosse pobre, herdei uma fortuna sólida, esta casa e o Condado da Torre, de que aliás cheguei a ser expropriado; nessa altura fiquei só com esta casa que não é propriamente uma fonte de rendimento mas uma fonte de despesas. Mas enfim, recuperou-se o Condado da Torre, que é hoje uma sociedade, e eu doei 80 por cento das acções à Fundação. Portanto a minha mãe tem algumas acções, e eu fiquei com cerca de 12 por cento, enfim, dá para viver mas não dá para grandes extravagâncias. Fiz esta doação porque entendi que era a melhor maneira de preservar a Casa, entendi que tinha beneficiado de circunstâncias invulgares, porque o sétimo Marquês de Fronteira, que nasceu em 1802 e cujo pai morreu quando ele tinha cinco anos, por volta de 1807, ainda beneficiou da Lei do Morgadio. Depois teve uma filha única que não teve filhos, e que deixou os seus bens a uma prima, prima essa que foi marquesa de Fronteira, e pelo casamento marquesa de Ávila e de Bolama, a qual me deixou esta Casa e o Condado da Torre directa-mente a mim, embora eu não tivesse ainda nascido. Ela deixou ao filho mais velho do filho mais velho do meu avô. O meu pai já era vivo mas eu ainda não, isto foi, salvo erro em 1927, e eu nasci em 1945. Claro que havia outros bens, que foram divididos e distribuídos por outros membros da família, como é natural, portanto este palácio e o Condado da Torre foram-me deixados por uma tia-bisavó. Resolvi criar a Fundação, que me pareceu a melhor forma de manter a unidade e a ligação entre estes dois pólos e a família, e ao mesmo tempo fazê-la de urna forma não egoísta, torná-la uma coisa útil social e culturalmente. Temos dois ou três tipos de actividades. Temos colóquios, ou encontros, que têm um caracter, digamos, mais científico, concentrados normalmente em dois, três, ou até mais dias, durante os quais são apresentadas várias comunicações. Temos também ciclos com temas variados, este ano por exemplo tivemos um ciclo sobre a leitura do romance, estes ciclos são feitos em várias sessões, já tivemos sessões de poesia, já tivemos sessões de «contar histórias», tivemos outro dedicado ao memorialismo, a minha mulher deu aulas de pintura aqui no palácio para os alunos da ULTI, fizemos também ciclos sobre azulejaria, sobre História de Arte e História da Literatura e sobre
temas ligados à família. Os colóquios antigamente eram gratuitos. Agora as pessoas pagam uma pequena taxa de incrição, e eu acho que é melhor assim, porque as pessoas quando pagam levam as coisas mais a sério. Os ciclos são de entrada livre, e costumam vir noticiados no JL, mas sobretudo no Expresso. Tivemos agora um ciclo de mesas redondas sobre «Ciências da Vida e Ética». Temos também um protocolo com a Câmara Municipal de Ponte de Sôr, que é onde se situa a herdade, e desenvolvemos lá um outro tipo de actividades, principalmente exposições de pintura, precedidas, no dia da inauguração, por uma conferência. A Fundação Gulbenkian também teve aí um papel muito importante, não directamente relacionado connosco, mas porque financiou o restauro da antiga Câmara Municipal, onde está agora a Biblioteca Municipal Calouste Gulbenkian.

— E os seus hobbies ?

—  Bom, eu não tenho propriamente hobbies, a menos que queira considerar um hobby o meu interesse pelas artes e pelas letras. Gosto muito de música. Mozart, Beethoven, Haydn, Bach, Schu-bert. Talvez o meu favorito seja Beethoven, o grande apaixonado, o grande romântico, se calhar porque a época em que eu ouvia mais música foi a minha juventude, e a juventude é quase sempre apaixonada e romântica. Nos últimos anos tive a sorte de as minhas actividades profissionais serem justamente aquelas que eu me sentia capaz de
desempenhar com verdadeiro prazer. As actividades da Fundação preenchem-me completamente, de forma que não sinto uma grande necessidade de ter um hobby.
— Senhor Marquês, há quem diga que a aristocracia morreu com Luís XVI no cadaf also. Acha que é verdade?
—  Bom, depende daquilo que se entende por aristocracia. Se por aristocracia estamos a falar de uma série de privilégios, alguns dos quais francamente inaceitáveis e abusivos, nesse aspecto sim, com certeza, realmente a Revolução Francesa representou, e felizmente, o fim de situações e de «direitos» que efectivamente não faziam sentido no século XVIII, e muito menos hoje, se é que alguma vez o fizeram. Noutro sentido, em que a aristocracia representa a manutenção de uma tradição, uma consciência histórica que normalmente não está tão presente nas outras classes sociais, uma certa responsabilidade perante o nome, embora isso também exista, sem dúvida, nalgumas famílias burguesas que criaram também uma certa tradição, e fazem gosto em honrar o seu nome, e eu acho isso muito bem, mas de qualquer forma penso que esse sentido histórico de se ser o elo de uma cadeia, de se fazer parte de um todo, talvez seja a característica mais importante da aristocracia, e nesse aspecto eu penso que a aristocracia é uma classe que não morreu, e que continua a existir. É evidente que existem pessoas com mais consciência de
classe do que outras, mas eu não acho que se possa dizer que a aristocracia morreu. Por outro lado a aristocracia é também um facto social. Há coisas que uma pessoa comum não conseguiria, e que a pessoa que declina um título acaba por conseguir. Não quer dizer que isso aconteça sempre, nem quer dizer que isso esteja certo, mas que é verdade e que acontece, isso é.

—  O Senhor Marquês acredita que o actual duque de Bragança ainda tem uma chance de se vir a sentar no trono português?

—  Eu acho que se têm visto coisas muito mais extraordinárias. Não é que ache muito provável, mas se há dez ou quinze anos nos dissessem que o regime soviético iria cair, que a União Soviética se iria dissolver e que o Muro de Berlim iria ser demolido num prazo tão curto, eu tenho a impressão que 99 por cento das pessoas não teriam acreditado, e portanto não sei. Hoje em dia dificilmente ponho limites àquilo que pode ou não pode acontecer. Não acho que seja uma coisa muito provável, mas pode haver um conjunto de circunstâncias que tornem possível essa solução ou que a tornem uma boa alternativa. De certa forma acho que seria mau sinal, porque acho que se isso acontecer é porque a nossa democracia funcionou mal, e não foi feliz, e eu espero bem que isso não aconteça. Mas penso que há circunstâncias em que tudo é possível, e acho que é importante, como «reserva», em alternativa à República, que exista a figura do herdeiro da Casa Real, é bom que exista, e pode acontecer que um dia o país necessite de recorrer ao regime monárquico.

— Senhor Marquês, se o Senhor Dom Duarte, por hipótese, fosse aclamado rei, o senhor dava–Ihe o seu apoio?

— Sim, com certeza. Aclamado ou não, a partir do momento em que eu pedi ao Senhor Dom Duarte e ao Conselho de Nobreza o reconhecimento dos títulos da minha Casa, e da representação genealógica das famílias que represento, assumi naturalmente um compromisso de lealdade e apoio em relação ao Senhor Dom Duarte, e portanto, desde que não vá contra a minha consciência, o Senhor Dom Duarte pode contar sempre com a minha lealdade. Sendo ou não aclamado, nesse aspecto não me faz muita diferença.

—  O Senhor Marquês costuma freqüentar o Beija-Mão Real no Castelo de S. Jorge, no 1° de Dezembro?

— Não. Não costumo lá ir.

—  Como é que o Senhor Marquês equaciona o nascimento anunciado do herdeiro do trono português com o futuro político de Portugal?

—  Bom, nós não sabemos quem vai ser essa criança, portanto é difícil dizer, pode ser uma pessoa extraordinária que pelas suas qualidades, pela sua maneira de estar, pelo seu relacionamento com as pessoas e com o país venha a conquistar mais adeptos para a Monarquia em Portugal. Aliás eu acho que o Senhor Dom Duarte já começou a fazer isso. Ele conseguiu criar um movimento de simpatia importante e penso que tudo isso é mais viável agora do que há quinze ou vinte anos, e portanto pode acontecer que a personalidade do futuro representante da Casa de Bragança possa ajudar, mas é claro que tudo isso são coisas imprevisíveis.

— Como é que o Senhor Marquês se relaciona com os outros membros da aristocracia portuguesa? Há um espírito de classe, de união, a ligar as pessoas?

- De um modo geral não há muito esse espírito de união. Um espírito de classe talvez haja, no sentido em que todos nós temos talvez alguma experiência em comum, e pelo menos uma responsabilidade em comum perante as nossas próprias Casas. Nesse sentido sim. Mas eu também sou um caso um pouco particular. Eu sou um marginal dentro da minha classe, devido ao posicionamento político que assumi desde a minha juventude e ao longo dos tempos. Sou um marginal dentro da aristocracia portuguesa, e não tenho muitos contactos. É claro que conheço as pessoas, algumas até são pessoas com posições políticas de esquerda, de quem me sinto ideologicamente mais próximo, mas a tendência maioritária da aristocracia é conservadora, e aliás até seria esquisito se fosse de outra forma. Embora o sejam por vezes mais na aparência do que na essência; tenho por exemplo um primo direito que é o meu herdeiro, que parece muito mais conservador do que é na realidade, porque nas atitudes que tem perante a vida e na maneira como se comporta, no fundo é muito menos conservador do que parece e talvez até do que ele próprio julga.

— Senhor Marquês, depois de o conhecer um bocadinho esta pergunta não faz muito sentido, mas enfim… o senhor vota no PPM? Sente de alguma forma o peso de uma obrigação moral, ancestral, no sentido de votar no Partido Popular Monárquico?

- Não. Nem por sombras. Já votei no PPM em circunstâncias especiais, nomeadamente por causa da figura do arquitecto Ribeiro Telles, que é uma pessoa que eu considero muito. É, sem dúvida, um homem de grande inteligência, um sonhador, mas às vezes um bocadinho exagerado; talvez prejudique as causas que defende por as defender tanto, mas se calhar se não o fizesse tanto também não era tão ouvido. Há radicalismos que são necessários à sobrevivência. Já votei uma vez no PPM, mas normalmente o meu voto é no Partido Socialista, embora não seja filiado em partido nenhum.

—  Senhor Marquês, o senhor pensa que um nobre que não tenha meios de fortuna para fazer brilhar o seu título,  deve prescindir dele?

— Esse é um ponto sobre o qual nunca reflecti maduramente, mas parece-me que é uma pergunta que faz todo o sentido e é difícil de responder… Olhe… acho muito digna e correcta a posição de alguns nobres, como a pessoa que me referiu, que tomaram essa atitude, o que não quer dizer que ache o contrário incorrecto. Por um lado deve haver uma certa ligação entre um título e um certo estatuto, digamos assim, embora o título só por si já confira algum estatuto, mas por outro, não acho que seja óbvio, de maneira nenhuma, que o facto de uma pessoa viver em condições financeiras menos brilhantes seja para essa pessoa impeditivo de usar títulos de nobreza. É claro que, ao longo da História, os títulos de nobreza estiveram geralmente ligados a um certo estatuto financeiro, embora as grandes Casas tenham passado alguns períodos históricos em situações econômicas mais difíceis, embora essas dificuldades fossem geralmente relativas. Quem tem muitas dívidas é porque tem algum dinheiro, porque se uma pessoa deve um milhão de contos automaticamente é considerada uma pessoa rica, mesmo que não tenha um tostão, o que é uma situação um bocado absurda. Há casos de famílias com títulos, e títulos importantes e antigos, que ao fim de um certo tempo a viverem em condições extremamente modestas acabaram por perder um bocado a consciência das Casas que representam, mas o que também é verdade é que a realidade não é uma coisa estática, e numa família com poucos recursos econômicos pode voltar a aparecer gente capaz de recuperar um certo à-vontade financeiro. Eu sei que existem algumas famílias cujos representantes foram pessoas modestíssimas, mas que com a evolução das condições sociais puderam fazer por exemplo uma licenciatura, exercer uma profissão liberal, e ascenderam a uma posição social mais elevada.

—  Para acabar, Senhor Marquês de Fronteira, como é um dia normal da sua vida?

—  Olhe, a minha mulher e eu nesta altura achámos que a Fundação se estava a «intrometer» um bocadinho na nossa vida privada, a «pesar» um pouco no nosso casamento, e decidimos alugar um apartamento e não viver aqui, pelo menos durante um tempo. Chego ao escritório por volta das onze da manhã, almoço cá, e estou muitas vezes até às seis, até às sete horas e, nos dias em que tenho acti-vidades da Fundação, fico até à meia-noite ou coisa parecida. A maior parte dos dias passo o serão com a minha mulher. Vou para casa, janto, não vejo muita televisão, até porque os programas interessantes começam todos tardíssimo, e eu preciso de dormir oito horas, para no dia seguinte me sentir
em condições para trabalhar. Sobretudo no Canal l e na SIC, os programas que apresentam até às onze horas, meia-noite, são perfeitamente «intragáveis», são de um mau gosto confrangedor, enfim, deve haver pessoas que gostam, não é… mas é pena. A RTP 2 já tem outro nível, e a TVI tem uma programação mais ecléctica que é mais parecida com aquilo que foi a certa altura a RTP l, que era um canal «generalista» com um bom nível qualitativo. O que acontece com o Canal l e com a SIC é que eles não respeitam os horários, quando se consegue gravar um programa é mera coincidência, quase não fazem intervalos entre os programas, e depois no meio dos programas fazem intervalos enormes, devem ser tudo técnicas publicitárias, com certeza, e se em relação à SIC é mais compreensível porque é um canal privado, cujo objectivo é obviamente o lucro, já a RTP l é um canal público, que é pago em grande parte pelos nossos impostos, e acho que esse estado de coisas não se justifica.

Esta entrevista não ficaria completa sem a transcrição de algumas palavras dirigidas pelo actual marquês de Fronteira ao seu herdeiro num «sermão» lido no Palácio Fronteira no dia 16 de Março de 1994.
«Pela ordem natural das coisas, caber-te-á, Antônio, mais tarde ou mais cedo, presidir aos destinos desta Fundação. É um fardo pesado que te deixo e que tu saberás conduzir, espero que com mão segura, até à próxima geração. Como tudo, tem os seus encantos, mas tem sobretudo muitos espinhos. Não é uma situação fácil aquela que te lego.
Viverás numa casa que é tua mas que não é só tua: é propriedade duma Instituição que nela funciona e de que tu serás a menor pane. Presidirás a um Conselho Directivo que, se tudo correr bem, de vez em quando se virará contra ti. Votarás numa Assembléia Geral em que deténs a maioria absoluta dos Títulos de Participação mas em que não podes decidir nada sozinho. Dirigirás uma Fundação a que todos chamarão tua, mas que, tu, saberás que, na verdade, não é tua. E pouco mais te posso dizer porque, por um lado, a minha experiência nesta área apenas tem alguns anos e porque, por outro, a minha situação como fundador é diferente, para melhor e para pior, do que será
a tua.
Ao teu pai coube o mais duro, que foi recuperar o Condado da Torre, a mim coube-me o mais aliciante, que foi criar a Fundação, a ti caber-te-á o mais difícil, que é saber conservar tudo isso.
Antônio, sé digno da Fundação e faz com que a Fundação seja digna de ti. Aprende a ajustar-te à sua realidade, procura conservar os equilíbrios já conseguidos e luta por aprofundá-los. Mas, acima de tudo, sé tu mesmo.»

fonte : “A Nobreza Portuguesa, Teresa Castro d’Aire” 1996

O Erro da Ota

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O ERRO DA OTA

Autores: Krus Abecassis, António Barreto, Vítor Bento, António dos Reis Borges, António Brotas, Frederico Brotas de Carvalho, Galopim de Carvalho, Miguel Frasquilho, Teresa Gamito, Luís Gonçalves, Pedro Quartin Graça, Mendo Castro Henriques, José Carlos Morais, Rui Moreira, António Cerveira Pinto, António Diogo Pinto, Patrícia Pires, Rui Rodrigues, Carlos Sant’Ana, Loureiro dos Santos, Gonçalo Ribeiro Telles

Págs.: 272

(PVP 19,00€)
Preço Especial Online: EUR 7,02

O panorama traçado pelos autores revela que não está apenas em jogo decidir se o novo aeroporto de Lisboa deve ser grande e substituir o da Portela; se deve ser mais pequeno e servir os voos de Baixo Custo e combinar-se com o actual, na solução Portela +1; ou se deve haver um novo aeroporto na grande banda de território plano entre Tejo e Sado que vai desde o Campo de Tiro de Alcochete até à Marateca. O que está em jogo exige começar por “sentir o território”; tentar perceber a geografia da região metropolitana de Lisboa; quais as potencialidades dos grandes estuários e a ligação dos corredores do Tejo e Sado; as vulnerabilidades da expansão a Norte do Tejo; a abrangência e as ameaças ambientais ao aquífero da península de Setúbal; a rede de ligações mar e terra, os portos e o transporte ferroviário e rodoviário.
Em segundo lugar, os autores deste livro rejeitam a Ota. Foi uma decisão mal preparada por sucessivos governos; mal fundamentada do ponto de vista técnico; acompanhada da ocultação e da manipulação de estudos; e desacompanhada por precauções relativamente à especulação fundiária:
rejeitam o erro da Ota que contraria toda e qualquer normalidade de procedimentos de “bom senso”.

Em terceiro lugar, aceitam que a Portela tem de ser complementada por um novo Aeroporto que deverá surgir de uma perspectiva de implementação faseada. O novo Aeroporto Internacional terá de reservar espaço de desenvolvimento para todo o século XXI. Para isso, o território em que se implanta deve ser bem compreendido, e as ligações com portos e ferrovias bem estabelecidas porque, em futuro próximo, as contingências ambientais limitarão a correcção de trajectória.

Este é um livro fundamental para compreender uma decisão que marcará o futuro de Portugal.

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Economia : Mais de dois milhões de portugueses sem dinheiro para pagar a renda

monarquiaportuguesa.com,somosportugueses.com

Dois milhões e 300 mil portugueses não têm dinheiro para pagar a renda da casa ou para fazer uma refeição de carne duas vezes por semana. Os dados são do Inquérito às Condições de Vida, realizado em 2009 com base em rendimentos de 2008, mas publicado esta semana.

Se não fossem as transferências sociais e a obrigação de desconto para a Segurança Social, 41,5 por cento da população portuguesa estaria em risco de pobreza.Sem o peso da intervenção do Estado a sociedade portuguesa seria uma sociedade ainda mais injusta e uma economia em colapso.

(16 de Julho de 2010)

A taxa de privação material, nova ferramenta usada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) para medir as dificuldades financeiras das famílias, mostra que 23% da população portuguesa estava, em 2008, nesta situação.

Assim, praticamente um quarto dos portugueses não consegue fazer uma semana de férias ou comprar um carro, uma televisão nem mesmo um telemóvel.

Risco de Pobreza

Apesar disso, de acordo com os dados divulgados esta quinta-feira pelo INE, o risco de pobreza diminuiu ligeiramente para 17,9%.Trata-se de uma redução de 0,6% face ao ano anterior, quando o risco de pobreza era de 18,5%.
No entanto o risco de pobreza na população idosa passou para 20,1%
Em termos de idades, o grupo com maior risco de pobreza é o das crianças e jovens até aos 17 anos (22,9%), já em termos de sexo são as mulheres as mais vulneráveis (18,4%). Quanto aos idosos, o risco de pobreza diminuiu em 2008: dos 22,3% do ano anterior, para 20,1%.

Quote:

A taxa de risco de pobreza corresponde à proporção de habitantes com rendimentos anuais por adulto de até 4.969 euros em 2008. Este limiar corresponde a 60% da mediana da distribuição de rendimentos.

Sem o Estado metade dos portugueses estaria na pobreza

Nota para as prestações sociais, como o subsídio de desemprego, pensões de reforma ou subsídio de doença: sem elas, 41,5% dos portugueses estaria em risco de viver na pobreza.

O inquérito do INE, realizado no ano passado com base nos rendimentos de 2008, mostra que as transferências sociais relacionadas com doença e incapacidade, família, desemprego e inclusão social (excluindo pensões) permitiram reduzir em 6,5 por cento a proporção de população em risco de pobreza.

A isto junta-se ainda o impacto das pensões de reforma e sobrevivência. Só estes rendimentos “extra” permitem reduzir em 17,2 por cento a proporção de indivíduos em risco de pobreza. Assim sendo, sem transferências sociais de qualquer ordem, a taxa de portugueses em risco de pobreza nunca estaria nos 17,9 por cento registados, mas sim em 41,5.

De acordo com o ministério «em apenas um ano» o risco de pobreza para a população idosa passou de 22,3 por cento para 20,1 por cento, «prosseguindo aliás a diminuição observada desde 2004, em que se situava em 29 por cento e até mesmo desde 1995, em que se fixava em 38 por cento».

Estes dados «confirmam que as prioridades políticas deste ministério, como seja o Complemento Solidário para Idosos, os apoios concedidos no âmbito do Abono de Família, em especial às famílias mais numerosas e às famílias monoparentais, estão afinadas com as necessidades da sociedade portuguesa».

O inquérito revela ,ainda,que o rendimento dos 20% mais ricos equivale a seis vezes o dos que pertencem ao grupo dos 20% mais pobres, mas que a desigualdade continua a reduzir-se.

O Ministério do Trabalho comentou os dados conhecidos hoje e destacou a «quebra muito significativa» do risco de pobreza na população idosa. «Constata-se que a incidência da pobreza já não é tão visível entre a população mais idosa, mas subsiste nas famílias mais vulneráveis, com dependentes e com desempregados», refere uma nota do gabinete da ministra Helena André.

fonte: Somos Portugueses
http://www.agenciafinanceira.iol.pt/artigo.html?id=1177904&div_id=1730

Mário Soares sobre D.Duarte de Bragança

«Em repetidas oportunidades, tive o ensejo de lhe demonstrar, Senhor Dom Duarte de Bragança, publicamente, o meu apreço e estima pessoal com a maior sinceridade»
Mário Soares, Presidente da República, 1985-1995

Fonte “Dom Duarte e a Democracia” de Mendo Castro Henriques, editora Bertrand

O que pensa Mário Soares dos monárquicos

(…) “É uma República progressiva, generosa, que pode conviver perfeitamente com aqueles que são monárquicos e com aqueles que são pretendentes à Coroa de Portugal”, afirmou.

Em relação aos monárquicos e aos pretendentes à Coroa de Portugal, Mário Soares sublinhou: “É um direito que lhes assiste e nós somos tolerantes com esses direitos, porque a República é liberdade, é tolerante, é democracia, ou não é democracia”. (…)

Fonte : Expresso

Configuração estigmática do Ideal Monárquico

Com o Estado Novo houve uma colagem de grande parte dos monárquicos a Salazar e à direita. No entanto sempre houve monárquicos do outro lado da barricada, o PPM não era de modo nenhum de direita e depois houve uma colagem sim à direita por parte de alguns grupos e meios de comunicação. Ou seja devido aos estigmas criados os monárquicos que se afirmam são os de direita, os de esquerda devido ao facto de não querem ser associados à direita não se pronunciam … como os que ficam então visíveis são os de direita a Monarquia fica automáticamente conotada com a direita.

Tanto é valido o contributo da direita democrática como o contributo da esquerda democrática. Está na altura de retirar a Causa Monárquica do gueto ao qual ficou confinado por interesse político de alguns grupos ou mesmo pelos meios de informação. Está na altura daqueles que são de esquerda e que acreditam num regime legítimo como o monárquico deixarem de ter medo e complexos de o serem para que todos possamos ajudar na transição para uma democracia monárquica.

“Este é o tempo …
Esta é a hora !”

Do Prefácio do livro “1910″ Mendo Castro Henriques (no prelo)

“Em meados de Outubro de 1910, a maior parte dos jornais, revistas e folhetos que circulavam em Lisboa apresentavam representações variadas de uma rapariga, algo desnudada, desenhada em estilo art Nouveau, com
os cabelos ao estilo clássico enfiados num barrete frígio e que fitava com ar fatal as brumas do futuro. Era uma figuração política e ao mesmo tempo o ídolo religioso de uma pátria e de um regime, exasperação emocional servida pela pequena burguesia que subira ao poder a um povo com emoções marianas. Oh ! Era a República!”

Livro já a sair “1910″ de Mendo Castro Henriques

«Se a monarquia representativa se tivesse mantido fiel ao espírito progressivo da Car­ta… o Partido Republicano não teria tido condições de vida.» (“Formação da Ideologia Republicana, 1820-1880”, Joaquim de Carvalho in “História do Regime republicano em Portugal”, Luís Montalvor, vol I)

“É habitual afirmar-se que na monarquia liberal, “o rei reina, mas não governa”. A fórmula, contudo, não deixa a claro as prerrogativas exercidas pelo monarcas portugueses da época. De facto, se algum poder se sobrepôs aos outros, durante a Monarquia constitucional, foi o executivo. A acção política exercia-se de cima para baixo. Ao nomear os ministros, o rei constituía governos da sua confiança; e os gover­nos eram sempre o “grande eleitor” que trazia à Câmara fortes maiorias. Quando caíam, não era porque essas maiorias os abandonassem, mas porque se gastavam e a Coroa, lhes retirava a  confiança.

Foi o poder moderador do rei que salvou o sistema representativo da de­generação parlamentarista, se por tal entendermos o crescimento enviesado do poder legislativo, e a sua intromissão abusiva nas áreas dos outros poderes constitucionais.”

Extrema Direita e a Monarquia

O que mais me preocupa como Monárquico nunca foi a esquerda, que por tradição na sua esmagadora maioria sempre foi  republicana, o que me preocupa são os ciclos da História. Em 1929 também houve uma grande crise económica, hoje tal como em 1929 a esmagadora maioria dos países estão a virar para a extrema-direita e para a direita. O que se seguiu todos sabemos, governos de extrema-direita colados a monarquias, uma Guerra Mundial sem precedentes … o resultado foi alguns países deixarem de ser Monarquias onde o Povo culpou o Rei da tomada de poder pela extrema-direita: Itália, Bulgária, Jugoslávia, Albânia.
A Grécia  entrou também numa guerra civil, a Casa Real por causa de ter apoio das esquerda foi deposta em 1969 por um golpe de estado dos Coronéis instaurando uma ditadura de extrema-direita. Há quem diga que seja uma nova tomada de posição para destronar as monarquias europeias, não me venham com pezinhos de lã … a extrema-direita cola-se ao ideal Monárquico mas não é de modo nenhum para aclamar um Rei !

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