E se nas presidenciais de 2015 a abstenção for de mais de 50% ?
26 Ago 2011 Deixe um Comentário
Em Política, abstenção é o acto de negar ou se excluir de fazer opções políticas. Bem no acto da eleição presidêncial significa que o eleitor não se revê em nenhum dos candidatos, será que se revê na República ?
A questão é pertinente
“se a abstenção for mais de 50% do universo de eleitores que legitimidade tem o candidato vencedor ?”
Numa Monarquia Constitucional lá fora se o nº de pessoas que é contra o Regime ou contra o rei numa sondagem nacional, como é usual nas Monarquias Constitucionais, pode ser o suficiente por exemplo em teoria para ser convocado um Referendo Nacional ao Regime por parte do Parlamento ? Acho que sim …
Agora na realidade do Portugal de hoje se o mesmo acontecer cá que legitimidade tem a República de continuar a guiar os destinos do nosso país ? que legitimidade tem o candidato vencedor de ser o Chefe de Estado de Portugal ? Quando a maioria do Povo Português não o quer ?
Deixo estas perguntas que o futuro se encarregará de responder … espero que o Povo um dia tenha o direito de exercer a sua Justiça no Voto e de poder escolher o Regime.
A Correspondência de António Sérgio para Raul Proença – José Carlos Gonzalez
24 Ago 2011 1 Comentário
“(…)Vê-se, da parte de António Sérgio, um certo sentimento de «culpabilidade», uma certa reserva, uma espécie de adeus tristonho e meditabundo à monarquia.(…)”
Se algo diz de importante esta correspondência (183 cartas, bilhetes postais e congéneres de António Sérgio para Raul Proença, a um só sentido, já que as recíprocas não foram até hoje encontradas) diz isto: que dois homens, dois intelectuais, se estimam, por vezes se digladiam, mais ou menos acerba ou amavelmente; que um é corrigido pelo outro e vice-versa e que, enfim, são ambos o anverso e o reverso de uma forte e séria consciência crítica, e retrato a dois de uma época convulsa, tão criadora como desilusória.
Porquê e como se encontram estes dois homens? Que encruzilhadas e acasos lhes determinam, de longe, as próprias vidas e os respectivos trajectos culturais? Onde começa e onde acaba a convergência nas ideias, a diferença nos temperamentos, a quase «separação» política, a páginas tantas, sobretudo entre 1911 e 1914? Coisa bem difícil de precisar, se pensarmos desde logo que António Sérgio, a par e passo, se afirma «aristocrata» mas «socialista»; enquanto que Raul Proença, nos seus mais vivos momentos de intervenção cívica, é simplesmente um republicano, que se não furta a uma análise, tantas vezes implacável, das realidades e dos erros da própria República, pela qual tão aberta, física e frontalmente lutou.
Há um período sobremaneira crítico, e não só crítico mas tortuoso, da opinião de António Sérgio sobre a I República — é o que decorre sobretudo no ano de 1913, durante a sua estada no Rio Janeiro. As acusações feitas aos líderes republicanos podem chegar a espantar quantos sabem quais foram as posições de Sérgio um pouco antes, e resolutamente depois do Sidonismo. Proença funcionava então, ao que penso, como «confessor privilegiado», e é realmente lamentável não se ter conservado nem uma carta do «homem da biblioteca» desse período. Alvo predominante, «bête noire» da acrimónia de Sérgio é Afonso Costa, a quem (ironia do destino e da História!) tece nos anos de exílio em França rasgados elogios, e que adopta como um dos chefes incontestados da «Liga Republicana».
De resto, é pelo menos curioso que boa parte das cartas dessa época (1913) se encontrem rasgadas, truncadas, roídas ou esfaceladas… A pouco e pouco, porém, António Sérgio começa a fazer «amende honorable», a dizer-se «mal informado», a já não confiar tão radicalmente nas fontes de comendadores e «refugiados», que com tanta frequência ouvira e aceitara.
E mais curioso, e triste, é termos de convir que, logo no início de 1914, Sérgio sofre uma crise de desorientação psicológica e intelectual que o leva a recorrer a sanatórios na Suíça. Mas todo o homem é capaz de evoluir: António Sérgio foi-o. Transmudou, a partir sobretudo de 1918, as suas ideias de «indiferente» político, para uma cada vez maior aproximação ao ideário republicano.
No terreno plano dos factos, A. Sérgio e R. Proença encontram-se a princípio de 1911 (postal n.º 1, de Janeiro 1911):
Ex. mo Sr. Raul Proença
Há muito tempo ando a querer procurá-lo para lhe pedir colaboração nos Serões […].
É pois António Sérgio quem busca o encontro com o ainda bem jovem publicista de jornais regionais que, nesses tempos, representaram uma força de intervenção dinâmica e corajosa para o surgimento da República. Marca-lhe Sérgio sítios de encontro em Lisboa, nomeadamente no Cais do Sodré, e para quê? Para ter diante dele o espelho que lhe faltava, a voz dissonante mas cordial, a centelha dos tempos novos no velho país onde ambos herdavam glórias e derrotas, esperanças, conquistas, ideias, desamparo e angústia, no finisterra chamado Portugal.
Sérgio era o principal responsável pela revista Serões, de vida pouco longa, é certo, mas onde ficaram os nomes de Afonso Lopes Vieira, Carolina Michaëlis e José Leite de Vasconcelos. Para esses Serões concitava Sérgio a pena ágil, febril, rebelde e combativa de Proença, que tinha vindo a afirmar-se na Alma Nacional dirigida por António José de Almeida. E, de facto, Raul Proença publica nos Serões, n.º 72, Junho de 1911, um trabalho sobre «O Movimento Religioso Contemporâneo», no qual, entre vária temática, foca os problemas de «As tendências modernistas das religiões», «Modernismo e Unitarismo», «Crentes e Livres-Pensadores», etc.
António Sérgio, por sua banda, tendo aderido ao movimento da Renascença Portuguesa, embora «inimigo», como afirma em várias ocasiões, das posições ultramontanas, saudosistas e «lusitanófilas» de Teixeira de Pascoais, teve na Águia, primeiro órgão de imprensa desse movimento, uma tribuna larga, livre, contrastante, por exemplo nos n.os 25, 28 e 30, com artigos desferidos ao peito do grande poeta do Marão. No n.º 25, a «Despedida de Julieta», no n.º 28, «Regeneração e tradição moral e económica», e no n.º 30 «Explicações necessárias do homem da espada de pau ao arcanjo da espada dum relâmpago».Tudo isto se passa no ano de grandes convulsões internas e internacionais de 1914. Ainda não eclodira a guerra mundial. Mas tudo a fazia pressentir.
A disputa, «de espada alta», como dissera Augusto Casimiro (nesse tempo ao lado dos «integralistas») avançou e azedou a tal ponto que Sérgio só podia escrever na Águia e na Vida Portuguesa (sua paralela, mais didática e formativa) em termos de franca contestação. Contestação direita aos arautos do «integralismo lusitano» onde, logo de seguida, enfileiraram as figuras de António Sardinha e de Alfredo Pimenta, para não falarmos de outros…
«Vamos pela Vida, pela Liberdade, pela Beleza, pelo Direito, pela própria Vida». Foi esta a exclamação juvenil e honrada de Proença, em 3 números da Águia — 52, 53, 54 — unidos no volume Abril/Maio/Junho de 1916, nos quais a tónica dominante é o anti-imperialismo alemão, e a declarada adesão ao combate contra as pretensões de hegemonia germanóide em Portugal. Essa série de artigos prosseguiu, com o título «Unidos pela Pátria» nos n. os 64, Abril de 1917, e 65 e 66, de Maio e Junho do mesmo ano.
É no 1.º número de Pela Grei, em 1918, que Sérgio e Proença são parceiros nítidos pela primeira vez, depois dos encontros e desencontros na Águia e na Vida Portuguesa. Justamente nesse primeiro número, António Sérgio, principal responsável pela publicação, aparece com um artigo: «Da opinião pública e da competência em Democracia», e Raul Proença com: «O Problema das Bibliotecas em Portugal», continuado no n.º 3 da mesma revista (Fevereiro 1918), com novas achegas para a remodelação e democratização dos estabelecimentos de leitura pública e de investigação cultural no nosso país. Se cito de preferência estas publicações é por pensar que foram manifestações importantes, úteis e salutares no contexto conturbado da I República, e ainda porque, de alguma maneira, constituem o reflexo claro do que foi a cooperação entre António Sérgio e Raul Proença, por mais de duas décadas, prenúncio afinal do que viria a ser a Seara Nova, e a acção do Grupo da Biblioteca, a partir de Outubro de 1921.
Essa cooperação foi longa, mas também entrecortada, e mesmo nula por vezes, por razões sobejamente conhecidas, entre 1932 e 1938, quando Raul Proença sofreu o internato no Hospital Conde Ferreira, no Porto, após a sua «repatriação» forçada para Portugal.
No decorrer dos quase trinta anos de correspondência, o processo das relações humanas e intelectuais dos dois homens é exemplar, no sentido em que nos relata a fermentação, o labor, as contradições e os desgastes de toda uma geração que, feitas bem as contas, fez pela cultura portuguesa talvez mais do que muito sábia e «electrónica» gente possa pensar e dizer (ou ocultar), agora.
Já no domínio da política, das ideias e das práticas políticas, resulta evidente que a cooperação de A. Sérgio com R. Proença alcança plenitude no comum e partilhado exílio em França, após a golpada de 28 de Maio de 1926, e que mais se acentua com a falhada tentativa de reposição da legalidade republicana e democrática dos primeiros dias de Fevereiro de 1927, que teve em Proença um dos seus mais dedicados activistas.
Façamos uma rápida retrospectiva. A. Sérgio vai para Inglaterra no início de 1911. Razões desse auto-expatriamento? Várias, e contraditórias, que dariam só por elas um volume de algum peso e muita polémica. Mas não é disso que estamos aqui a tratar. Sérgio passa velozmente por Lisboa em Janeiro de 1912, apontando desta vez para o Brasil, onde vai permanecer dois anos. E é interessante verificar que sejam os expatriamentos (Inglaterra, Suíça, Brasil) os períodos mais férteis da sua correspondência para R. Proença. Faltava-lhe talvez o irmão, o confidente, o alter ego ? Muito possível.
Curioso é também que entre os anos 1927 e 1932 (em Paris e nos outros sítios da Europa) essa fertilidade e esse volume se renovem. Mas nesse tempo tratava-se de urgência política: o trabalho revolucionário contra a ditadura, no qual tanto Sérgio como Proença se empenharam a fundo. As tremendas implicações de ordem humana, nesse derradeiro e baldado esforço para recompor a legalidade e a Democracia foram da mais variada (e por vezes desvairada) ordem, e puseram em jogo políticos e escritores, cientistas e filósofos, homens de acção e de reflexão que tentaram, quanto podiam, levar a bom porto os seus intentos. Não posso deixar de referir entre eles Jaime Cortesão, sem dúvida um dos activos agentes de relações públicas internacionais pela causa da resistência no exílio.
Patente, de resto, está essa sua actividade de «pombo-correio» em vários passos desta correspondência, e patente o reconhecimento que lhe é feito como líder mental e moral nos movimentos patrióticos, nomeadamente em Espanha, dos emigrados políticos portugueses.Vê-se, da parte de António Sérgio, um certo sentimento de «culpabilidade», uma certa reserva, uma espécie de adeus tristonho e meditabundo à monarquia. O que de modo algum pode invalidar a outra imagem de António Sérgio, da sua séria dimensão de pensador, de sociólogo, pedagogo e reformador.
Raul Proença era, ao fim e ao cabo, um romântico, e por vezes um romântico exaltado. Passou a vida a tentar entendê-la pelo lado bom (chegou inclusivamente a cometer um livrinho de poemas a que chamou Elogio da Vida ). A vida, essa, pagou-lhe amargamente, e com o lado mau. Acontece a muito boa gente.
Os espaços em branco, os hiatos nesta correspondência de A. S. para R. P., são, de quando em quando, sonoros. Não ironizo, e explico-me: o tal sentimento de «culpabilidade » sergiano batia contra a testa obstinada de Proença, que devolvia a bola. E Sérgio sempre, ou quase, se sentiu obrigado a justificações. Repetidas vezes disse: «Para mim a M. (monarquia) vale a R.(república)…».
O calor antiditadura salazarenta de António Sérgio, expresso logo nas suas primeiras cartas de Paris, é autêntico, sério, fundamentado, sem sombras. Atrevo-me, no entanto, a dizer que Raul Proença sofria essa miséria política, moral e mental «mais por dentro». Exactamente porque era um romântico, herdeiro embora tardio do Sturm und Drang, «ideal-realista», como a si próprio se definiu numa série de artigos na Seara Nova, a propósito do livro de Julien Benda, La Trahison des Clercs. Ao passo que Sérgio se manteve sempre um cartesiano confesso. Mau grado as divergências — que apenas nos limitamos a apontar — o certo é que a convivência intelectual de António Sérgio e Raul Proença é um marco relevante na história da cultura portuguesa.
Dezembro, 1986
* Versão do texto de introdução ao volume António Sérgio: Correspondência para Raul Proença. Lisboa: Publicações Dom Quixote/Biblioteca Nacional, 1987. P. 13-18. Para esta publicação, que pretende recordar, em jeito de homenagem, «as mãos» do colega já falecido, apenas foram suprimidas as referências directas à primeira publicação que só aí fariam sentido.
Fonte AQUI
Plano de El Rei D.Manuel II e Alfredo Monteverde do PSP
21 Ago 2011 Deixe um Comentário
Venceslau de Lima seria um estimado e distinto palaciano, seria uma pessoa de ideias convenientes, mas era um político de acanhada visão. Não compreendeu o alcance do plano que o jovem rei e o Alfredo Monteverde urdiam. D. Manuel era, talvez, demasiado novo para que Venceslau de Lima evidenciasse pelo assunto um interesse mais vivo que a atenção condescendente da sua carta de 16 de Junho:
“Falei também com o Monteverde. Eu já tenho alguns entendimentos com o operariado por intermédio dum companheiro de Gneco; mas julgo difícil que alguma cousa de praticamente útil por esse lado se consiga.
O político palaciano era um homem prático e, por isso mesmo, descria e considerava difícil.
De Junho de 1909 a Setembro de 1910, os documentos encontrados nos palácios reais após a proclamação da República falam-nos do interesse do rei pela captação e organização do movimento operário socialista. Alfredo Monteverde aproxima-se dos operários do Arsenal e envia a D. Manuel uma relação das suas reivindicações. Em Setembro de 1909 envia a D. Manuel a tese Construção de Casas Económicas por Iniciativa Particular, de que era autor Azedo Gneco e a qual o Congresso Nacional Operário aprovara por unanimidade.”
A 7 de Outubro de 1909 principia assim uma carta para o soberano:
“Meu Senhor. — Venho agradecer reconhecidíssimo o seu bilhete e a carta que Vossa Majestade houve por bem enviar-me e o interesse que Vossa Majestade continua a tomar pelos seus operários.
Nesta carta afirma a feição monárquica, a integração na orgânica social vigente, do Partido Socialista e denuncia a índole anarquista do Congresso Sindicalista, que considerava influenciado pelos republicanos. Em Fevereiro de 1910 dá notícias ao rei de uma reunião com o conselheiro Soares Branco e o conde de Penha Garcia, onde se tratou de assuntos referentes ao movimento operário, e a boa nova de que um jovem doutorando pretendia defender uma tese do Direito Operário, o que mostrava que o interesse pela questão chegava à Universidade, que «deveria caminhar na frente do grande movimento de renovação intelectual e política que se prepara».
Em Agosto de 1910 encontramos Monteverde num grande desânimo. O Ministério chefiado pelo progressista Beirão prodigalizara-lhe provas de desinteresse e má vontade. A portaria do inquérito ao trabalho nacional devia-se exclusivamente ao empenho e diligência do rei. O seu prestígio junto das massas operárias empalidecera, pelo insucesso dos seus esforços e pelo sucesso de Azedo Gneco, que, numa entrevista com o presidente do Conselho, Teixeira de Sousa, obtivera a Portaria de 12 de Julho de 1910, que criou a Comissão de Trabalho, na qual tinham assento três delegados das classes trabalhadoras. Por outro lado, os republicanos aproximavam-se dos socialistas. Nas vésperas da «revolução» sentiam a necessidade de consolidar as suas forças estabelecendo ligações e alianças. A burguesia liberal, que lhe fizera uma guerra de morte (vide carta de D. Manuel de Bragança a Venceslau de Lima atrás citada e as declarações
de fontes socialistas, designadamente de Azedo Gneco), estendia agora a mão ao partido da classe operária para marchar reforçada à conquista do poder.
Agostinho Fortes procurara Azedo Gneco. «Suponho que o Agostinho Fortes e o seu imaginário partido não são mais do que a rede lançada pelos republicanos para pescar os socialistas», escrevia o dirigente socialista, a 15 de Agosto, a Alfredo Monteverde.
Monte verde e o jovem rei trataram de obter, pelo Ministério das Obras Públicas, passes nos Caminhos-de-Ferro do Estado para os delegados operários da Comissão do Trabalho; auxílio monetário, ou por encomendas de trabalhos, para o Instituto das Artes Gráficas, pequena tipografia da Rua das Pretas, onde se imprimiam jornais e folhetos socialistas; e gratificações para os três delegados operários da Comissão do Trabalho. Deste último ponto trata a carta de Azedo Gneco a Monteverde, por este remetida a D. Manuel de Bragança, que transcrevemos na integra:
“Meu caro Alfredo Monteverde. – Dentro da organização, chamada legal, dos serviços públicos não encontro meio de serem gratificados os membros operários da Comissão do Trabalho, porque constituem um caso extraordinário que nenhuma lei prevê. Mas dois desses membros têm a seus cargos importantes estudos. Um deles, L. Batalha, cuida da criação do Instituto do Trabalho, que deve ser uma Direcção-Geral, mas apenas deste assunto; o outro, que sou eu, tem na sua frente não só os estudos do primeiro, como centro de toda a acção futura da legislação do trabalho, como toda essa legislação a condensar num código, o que me parece ser muito para fazer nas horas vagas, precisando ganhar o pão de cada dia. Agora, por exemplo, estou
trabalhando no que respeita a acidentes do trabalho, tenho que ajudar L.Batalha, que condensar a legislação estrangeira, que comprar um monte de livros, etc, e, por cima de tudo isto, que pensar e tratar da minha vida. Mas para casos extraordinários só providências extraordinárias, enquanto tudo não entra na normalidade. E daqui não é possivel sair, segundo penso. Amigo dedicado, Azedo Gneco.-19 de Setembro de 1910.”
Fonte Análise Social, Fernando Piteira Santos
Carta de Raul Brandão do PSP aos dirigentes da Governação na República Portuguesa
21 Ago 2011 Deixe um Comentário
"Nesta hora decisiva para os destinos da Nação, ao Partido Socialista Português, como a única oposição possível e eficaz dentro da actual democracia, tão sabiamente apostolizada pelos actuais detentores do Poder durante largos anos de propaganda, incumbe fazer saber qual o sentimento e opinião das classes proletárias perante o aspecto hesitante e dúbio de que a actual situação política se está revestindo. Na consciência pública principia a despontar a suspeita, que julgamos deveras arrojada, de que todo o trabalho de demolição feito pelos apóstolos da República, longe de se basear na legítima aspiração dum ideal infindo, teria tido por mero e desprezível objectivo a conquista do Poder por motivos de ordem mercantil. Não o quer assim acreditar o Partido Socialista Português; mas, como, pela índole e natureza dos seus ideais, mergulha no mais fundo das numerosas falanges do proletariado, nele surpreende a formação sempre crescente e cada vez mais nítida desta deplorável corrente de opinião. Nas falanges anarquistas, tanto como entre os sindicalistas e socialistas, e mesmo na opinião mais ou menos hesitante dos chamados indiferentes; no seio, enfim, de todo o proletariado português lavra profundo desgosto, e até revolta, contra o triste espectáculo que ao País e ao mundo estão dando neste momento os mais denodados caudilhos da democracia republicana. Que fraqueza é esta de se deixarem vencer pelo impulso das suas mais violentas paixões, descurando os interesses da República, pondo em risco a paz e a integridade nacional, menosprezando os mais caros interesses económicos do proletariado, que se vê a braços e abandonado na solução dos seus mais graves problemas profissionais, sacrificando-se tudo, enfim, aos instintos do ódio, do comando e da vaidade? O Partido Socialista Português, senhores, interpreta neste momento o sentir de toda a nação proletária, de todo o país trabalhador e honesto, vindo declarar em público e bem alto que são impolíticas e até traidoras aos ideais republicanos todas e quaisquer cisões ou dissidências que se continuem alimentando entre os dirigentes mais em evidência na pública governação do País.E, mais do que isto, o Partido Socialista entende que deve ser lançada aos actuais dirigentes e aos elementos mais preponderantes da República Portuguesa a inteira responsabilidade por todas as perturbações de ordem ultimamente havidas e por todas que parecem prestes a haver, incluindo as responsabilidades duma possível guerra civil que já alguns julgam iminente, se não resolverem, em holocausto aos seus ideais apostolizados, pôr termo a todas as dissidências e rivalidades partidárias e se não discutirem e promulgarem imediatamente, com o voto do Congresso, O Instituto do Trabalho Nacional, presentado em projecto de lei pelo deputado socialista, o companheiro Manoel José da Silva, a única forma de se apreciarem e decidirem com profundo conhecimento de causa todos os complicados problemas económicos que afectam as classes trabalhadoras e as lançam num justificadíssimo movimento de revolta. Lisboa, 31 de Agosto de 1911. —O Partido Socialista Português. [Vide Raul Brandão, Memórias, t. n, pp. 161-163.]"
El Rei D.Manuel II e as relações com o Partido Socialista Português
21 Ago 2011 Deixe um Comentário

O operariado, como força política, era devidamente considerado por D. Manuel de Bragança, que, envolvido nas turbulentas lutas entre facções monárquicas, ameaçado pelos progressos dos republicanos e cercado pelo ambiente do Paço, entendia necessária a criação de grandes partidos de governo. Nas notas da sua conferência com o conselheiro Pimentel Pinto acerca da remodelação partidária, atrás transcritas, o rei diz que já era sua opinião de há muitos meses a criação de um forte Partido Conservador, que compreenderia os progressistas, os henriquistas, os franquistas e os nacionalistas, e também refere, sem anotar discordância, o projecto de se fazer «pouco a pouco» Venceslau
de Lima chefe do Partido Regenerador.
O Paço arrumava assim a questão política. (Pelas cartas de Pimentel Pinto à rainha acerca da eleição de Teixeira de Sousa é legítimo presumir que o projecto Venceslau de Lima não fosse desconhecido de D. Amélia de Orleães.) O jovem
rei, porém, ia mais longe. Desejava que o Partido Socialista se fortalecesse, se mantivesse unido e se tornasse o centro de atracção das massas operárias, que, subestimadas pelos partidos monárquicos, cujo grau de organização partidária
era quase nulo, se encaminhavam progressivamente, no rasto da pequena burguesia das cidades e das vilas, para as fileiras dos republicanos. Tratava-se de afastar as massas operárias da pequena burguesia republicana, organizando-as
independentemente num partido de classe e concedendo-lhes a satisfação de umas quantas reivindicações. Disso cuidou pessoalmente D. Manuel de Bragança.
As 2 horas da manhã do dia 15 de Junho de 1909 escrevia o rei ao presidente do Conselho, então Venceslau de Lima:
“Vou agora passar a um outro assunto que me parece muito importante. O outro assunto importante é o seguinte: o Partido Socialista. Como o meu querido presidente do Conselho sabe: o Partido Socialista encontra-se desorganizado
e dividido em fracções desde 1891. O Partido Republicano tem-lhe feito uma guerra de morte e arranjou sempre as coisas de maneira que o Partido se encontrasse em completo desacordo entre os diferentes grupos.
Houve uma pessoa que meteu mãos à obra e, trabalhando a sério, conseguiu uma cousa que deve ficar muitíssimo confidencial. O Partido Socialista encontra-se há poucos dias completamente unido: a pessoa que conseguiu isso é o Alfredo Aquiles Monteverde, que certamente bem conhece. Eu tenho-me interessado muito há já bastante tempo por esta questão, que tenho vindo seguindo e ajudando. Há agora pois o seguinte. No tempo do Ministério Campos Henriques, chamou o Campos Henriques um dos primeiros e principais socialistas, que é o Azedo Gneco, e pediu-lhe para expor qual a sua ideia, e o Gneco enviou-lhe um memorandum cuja cópia incluso envio, assim como o Programa do Partido Socialista Intervencionista Português e uns artigos de jornais: recomendo-lhe sobretudo o do Trabalho.
Vão agora fazer um congresso operário em Lisboa. Parece-me pois da máxima utilidade chamar a nós este congresso, e isso é fácil, como passo a explicar, fazendo ao mesmo tempo umas perguntas que o Monteverde, que tem prestado muitíssimos serviços, hoje me entregou.”
Fonte Análise Social de Fernando Piteira Santos
Agostinho da Silva o Realista e Socialista
21 Ago 2011 1 Comentário
Em 1892, data da publicação do livro O Socialismo na Europa, Sebastião de Magalhães Lima registava
“Do grupo socialista que corresponde ao marxista francês são hoje principais representantes Nobre França, Domingos Leite, Conceição Fernandes, Viterbo de Campos, Luís Soares, Azedo Gneco e outros, e do grupo possibilista, os Srs. Luís de Figueiredo, Agostinho da Silva, Carvalho e Cunha e José Martins, de Lordelo”.
A biografia do Realistas de Agostinho da Silva pode ser lida AQUI
A repressão politica do PRP sobre o Partido Socialista Portugues
21 Ago 2011 Deixe um Comentário
“A propaganda republicana, começando a tomar avanço veio suplantar a acção do Partido Socialista, que praticou o grave erro de não exercer uma actividade política persistente, pois sempre se orientou mais pela luta no campo económico. O operariado não desenvolveu o espírito combativo na arena política a fim de conquistar as cadeiras do Parlamento, dos municípios, das juntas. O Partido Republicano, ao qual não interessava directamente a questão económica, por ser um partido com fundamento na ideologia capitalista, accionou por todas as formas nos meios operários com as fórmulas políticas, conquistando assim a adesão das massas proletárias, as quais não tinham ainda uma consciência nitidamente socialista, e proclamando que sem a República não poderia desenvolver-se a organização socialista. Esta falsa teoria e o erro de táctica de orientação do Partido Socialista foram a origem de muitos dos acontecimentos que se produziram depois de 5 de Outubro de 1910 [...] [T. i, p. 279.]“
Fonte Notas para a História do Socialismo em Portugal de César Nogueira
Congressos separados realizam-se em 1909 e no de Lisboa declara-se a dissidência «provocada pelos elementos anarquistas e socialistas que acompanhavam o Partido Republicano, sob o pretexto de que era necessário proclamar primeiro a República e depois tratar da organização operária e socialista» (César Nogueira, op. cit, t. n, p. 300).
As tentativas de restabelecimento da unidade partidária e a reconciliação de Azedo Gneco (considerado como dirigente da ala dita marxista) e de Luís de Figueiredo (figura cimeira da corrente possibilista) chegaram ao conhecimento de D. Manuel de Bragança. Este herdara o trono em circunstâncias particularmente difíceis: o colapso da ditadura franquista; as sequelas do atentado que vitimara o rei, seu pai, e o príncipe, seu irmão primogénito; inviabilidade do regresso a um rotativismo plácido; a permanente ofensiva dos republicanos.
Os Documentos Políticos, Encontrados nos Palácios Reais depois da Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910, cuja publicação foi ordenada pela Assembleia Nacional Constituinte (sessão de 18 de Julho de 1911), constituem um repositório valioso que nos conduz ao seio da intriga política que se tece à volta do jovem rei. É a luta, sinuosa, aspérrima, dos partidos monárquicos pelo 676 poder. Algumas vezes, as ambições pessoais apresentadas como a melhor forma de servir a Monarquia. Sempre as propostas ao rei justificadas como o meio adequado para deter o avanço republicano.
Da sua casa da Rua dos Navegantes, retido pela invalidez física, o político experimentado e hábil que era José Luciano de Castro denunciava ao jovem rei o inimigo principal:
Contra os republicanos é que devem ser assestadas todas as baterias, esse é o inimigo. Convém vigiá-lo sempre.
Fonte Análise Social de
Fernando Piteira Santos
A rotura de Antero e de Oliveira Martins em relação ao republicanismo
21 Ago 2011 Deixe um Comentário
A rotura de Antero e de Oliveira Martins em relação ao republicanismo (movimento e ideário), além dos aspectos pessoais que revestia, não é uma atitude desgarrada, situa-se na sequência da orientação predominante nas classes trabalhadoras ou é com ela concordante. Deixará, contudo, marcas profundas e o Partido Socialista, mesmo no período que antecedeu proximamente a revolução republicana, situar-se-á, politicamente, em confronto com os republicanos e manter-se-á à margem dos trabalhos conspiratórios. E, o que foi mais grave para a revolução republicana e para o Partido Socialista, o partido político da classe operária teria entrado, através de dirigentes seus, no jogo estratégico das conversações e dos planos para conservar o poder real e defender (dos republicanos) as instituições monárquicas.
Fonte Análise Social de Fernando Piteira Santos
Expresso – Socialistas querem legalizar cibersecção
19 Ago 2011 Deixe um Comentário
O movimento nasceu na rede social, tem quase mil apoiantes, e quer aggiornar a organização dos partidos políticos em Portugal
Um grupo de militantes do PS quer ver reconhecida a primeira cibersecção do PS e está no bom caminho para o conseguir. O movimento já tem quase mil apoiantes e é provável que conquiste o novo secretário-geral do PS, António José Seguro, ele próprio um praticante ativo da comunicação através do Face-book.
A iniciativa partiu de um conjunto de militantes, entre os quais o deputado João Galamba (que aderiu ao PS já depois das legislativas de 5 de junho), e esta semana conheceu um novo impulso por parte do antigo dirigente Paulo Pedroso.
Em tempos participante de uma comissão de reforma estatutária “que abriu essa possibilidade”, Pedroso fez um apelo aos seus seguidores no Face-book para que aderissem ao movimento: “Está na hora de experimentar esta nova forma de organização e militância partidária”, justificou.
Os promotores da iniciativa pretendem “poder exercer uma nova forma de militância, de proximidade com os novos tempos, onde a Internete as redes sociais se revelam como novos paradigmas de ação política e cívica”.
A concretização da ideia passa pela criação de uma página no Facebook num primeiro momento aberta a militantes e não militantes, sendo que, “após reconhecimento”, será promovida uma subpágina destinada apenas e só aos militantes para “poderem cumprir os seus direitos ao abrigo dos estatutos”.
Na moção com que se apresentou a votos, António José Seguro prometeu lançar já no próximo congresso “um amplo debate nacional sobre a organização e funcionamento interno do PS” (que decorrerá até ao fim de março de 2012), com o fito de pôr em prática “uma nova fornia de fazer política partidária”. A legalização da cibersecção pode ser o ponto de partida.
cristina figueiredo
cfigueiredo @ expresso.impresa.pt
Expresso, 6 de Agosto de 2011, página 8 do 1ºcaderno












