Carta de Raul Brandão do PSP aos dirigentes da Governação na República Portuguesa
21 Ago 2011 Deixe um Comentário
"Nesta hora decisiva para os destinos da Nação, ao Partido Socialista Português, como a única oposição possível e eficaz dentro da actual democracia, tão sabiamente apostolizada pelos actuais detentores do Poder durante largos anos de propaganda, incumbe fazer saber qual o sentimento e opinião das classes proletárias perante o aspecto hesitante e dúbio de que a actual situação política se está revestindo. Na consciência pública principia a despontar a suspeita, que julgamos deveras arrojada, de que todo o trabalho de demolição feito pelos apóstolos da República, longe de se basear na legítima aspiração dum ideal infindo, teria tido por mero e desprezível objectivo a conquista do Poder por motivos de ordem mercantil. Não o quer assim acreditar o Partido Socialista Português; mas, como, pela índole e natureza dos seus ideais, mergulha no mais fundo das numerosas falanges do proletariado, nele surpreende a formação sempre crescente e cada vez mais nítida desta deplorável corrente de opinião. Nas falanges anarquistas, tanto como entre os sindicalistas e socialistas, e mesmo na opinião mais ou menos hesitante dos chamados indiferentes; no seio, enfim, de todo o proletariado português lavra profundo desgosto, e até revolta, contra o triste espectáculo que ao País e ao mundo estão dando neste momento os mais denodados caudilhos da democracia republicana. Que fraqueza é esta de se deixarem vencer pelo impulso das suas mais violentas paixões, descurando os interesses da República, pondo em risco a paz e a integridade nacional, menosprezando os mais caros interesses económicos do proletariado, que se vê a braços e abandonado na solução dos seus mais graves problemas profissionais, sacrificando-se tudo, enfim, aos instintos do ódio, do comando e da vaidade? O Partido Socialista Português, senhores, interpreta neste momento o sentir de toda a nação proletária, de todo o país trabalhador e honesto, vindo declarar em público e bem alto que são impolíticas e até traidoras aos ideais republicanos todas e quaisquer cisões ou dissidências que se continuem alimentando entre os dirigentes mais em evidência na pública governação do País.E, mais do que isto, o Partido Socialista entende que deve ser lançada aos actuais dirigentes e aos elementos mais preponderantes da República Portuguesa a inteira responsabilidade por todas as perturbações de ordem ultimamente havidas e por todas que parecem prestes a haver, incluindo as responsabilidades duma possível guerra civil que já alguns julgam iminente, se não resolverem, em holocausto aos seus ideais apostolizados, pôr termo a todas as dissidências e rivalidades partidárias e se não discutirem e promulgarem imediatamente, com o voto do Congresso, O Instituto do Trabalho Nacional, presentado em projecto de lei pelo deputado socialista, o companheiro Manoel José da Silva, a única forma de se apreciarem e decidirem com profundo conhecimento de causa todos os complicados problemas económicos que afectam as classes trabalhadoras e as lançam num justificadíssimo movimento de revolta. Lisboa, 31 de Agosto de 1911. —O Partido Socialista Português. [Vide Raul Brandão, Memórias, t. n, pp. 161-163.]"





