Carta de Raul Brandão do PSP aos dirigentes da Governação na República Portuguesa


"Nesta hora decisiva para os destinos da Nação, ao Partido Socialista Português, como a única oposição possível e eficaz dentro da actual democracia, tão sabiamente apostolizada pelos actuais detentores do Poder durante largos anos de propaganda, incumbe fazer saber qual o sentimento e opinião das classes proletárias perante o aspecto hesitante e dúbio de que a actual situação política se está revestindo.
Na consciência pública principia a despontar a suspeita, que julgamos deveras arrojada, de que todo o trabalho de demolição feito pelos apóstolos da República, longe de se basear na legítima aspiração dum ideal infindo, teria tido por mero e desprezível objectivo a conquista do Poder por motivos de ordem mercantil.
Não o quer assim acreditar o Partido Socialista Português; mas, como, pela índole e natureza dos seus ideais, mergulha no mais fundo das numerosas falanges do proletariado, nele surpreende a formação sempre crescente e cada vez mais nítida desta deplorável corrente de opinião.
Nas falanges anarquistas, tanto como entre os sindicalistas e socialistas, e mesmo na opinião mais ou menos hesitante dos chamados indiferentes; no seio, enfim, de todo o proletariado português lavra profundo desgosto, e até revolta, contra o triste espectáculo que ao País e ao mundo estão dando neste momento os mais denodados caudilhos da democracia republicana.
Que fraqueza é esta de se deixarem vencer pelo impulso das suas mais violentas paixões, descurando os interesses da República, pondo em risco a paz e a integridade nacional, menosprezando os mais caros interesses económicos do proletariado, que se vê a braços e abandonado na solução dos seus mais graves problemas profissionais, sacrificando-se tudo, enfim, aos instintos do ódio, do comando e da vaidade?
O Partido Socialista Português, senhores, interpreta neste momento o sentir de toda a nação proletária, de todo o país trabalhador e honesto, vindo declarar em público e bem alto que são impolíticas e até traidoras aos ideais republicanos todas e quaisquer cisões ou dissidências que se continuem alimentando entre os dirigentes mais em evidência na pública governação do País.E, mais do que isto, o Partido Socialista entende que deve ser lançada aos actuais dirigentes e aos elementos mais preponderantes da República Portuguesa a inteira responsabilidade por todas as perturbações de ordem ultimamente havidas e por todas que parecem prestes a haver, incluindo as responsabilidades duma possível guerra civil que já alguns julgam iminente, se não resolverem, em holocausto aos seus ideais apostolizados, pôr termo a todas as dissidências e rivalidades partidárias e se não discutirem e promulgarem imediatamente, com o voto do Congresso, O Instituto do Trabalho Nacional,  presentado em projecto de lei pelo deputado socialista, o companheiro
Manoel José da Silva, a única forma de se apreciarem e decidirem com profundo conhecimento de causa todos os complicados problemas económicos que afectam as classes trabalhadoras e as lançam num justificadíssimo movimento de revolta.

Lisboa, 31 de Agosto de 1911. —O Partido Socialista Português. [Vide Raul Brandão, Memórias, t. n, pp. 161-163.]"

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