El Rei D.Manuel II e as relações com o Partido Socialista Português


O operariado, como força política, era devidamente considerado por D. Manuel de Bragança, que, envolvido nas turbulentas lutas entre facções monárquicas, ameaçado pelos progressos dos republicanos e cercado pelo ambiente do Paço, entendia necessária a criação de grandes partidos de governo. Nas notas da sua conferência com o conselheiro Pimentel Pinto acerca da remodelação partidária, atrás transcritas, o rei diz que já era sua opinião de há muitos meses a criação de um forte Partido Conservador, que compreenderia os progressistas, os henriquistas, os franquistas e os nacionalistas, e também refere, sem anotar discordância, o projecto de se fazer «pouco a pouco» Venceslau
de Lima chefe do Partido Regenerador.

O Paço arrumava assim a questão política. (Pelas cartas de Pimentel Pinto à rainha acerca da eleição de Teixeira de Sousa é legítimo presumir que o projecto Venceslau de Lima não fosse desconhecido de D. Amélia de Orleães.) O jovem
rei, porém, ia mais longe. Desejava que o Partido Socialista se fortalecesse, se mantivesse unido e se tornasse o centro de atracção das massas operárias, que, subestimadas pelos partidos monárquicos, cujo grau de organização partidária
era quase nulo, se encaminhavam progressivamente, no rasto da pequena burguesia das cidades e das vilas, para as fileiras dos republicanos. Tratava-se de afastar as massas operárias da pequena burguesia republicana, organizando-as
independentemente num partido de classe e concedendo-lhes a satisfação de umas quantas reivindicações. Disso cuidou pessoalmente D. Manuel de Bragança.

As 2 horas da manhã do dia 15 de Junho de 1909 escrevia o rei ao presidente do Conselho, então Venceslau de Lima:

“Vou agora passar a um outro assunto que me parece muito importante. O outro assunto importante é o seguinte: o Partido Socialista. Como o meu querido presidente do Conselho sabe: o Partido Socialista encontra-se desorganizado
e dividido em fracções desde 1891. O Partido Republicano tem-lhe feito uma guerra de morte e arranjou sempre as coisas de maneira que o Partido se encontrasse em completo desacordo entre os diferentes grupos.
Houve uma pessoa que meteu mãos à obra e, trabalhando a sério, conseguiu uma cousa que deve ficar muitíssimo confidencial. O Partido Socialista encontra-se há poucos dias completamente unido: a pessoa que conseguiu isso é o Alfredo Aquiles Monteverde, que certamente bem conhece. Eu tenho-me interessado muito há já bastante tempo por esta questão, que tenho vindo seguindo e ajudando. Há agora pois o seguinte. No tempo do Ministério Campos Henriques, chamou o Campos Henriques um dos primeiros e principais socialistas, que é o Azedo Gneco, e pediu-lhe para expor qual a sua ideia, e o Gneco enviou-lhe um memorandum cuja cópia incluso envio, assim como o Programa do Partido Socialista Intervencionista Português e uns artigos de jornais: recomendo-lhe sobretudo o do Trabalho.
Vão agora fazer um congresso operário em Lisboa. Parece-me pois da máxima utilidade chamar a nós este congresso, e isso é fácil, como passo a explicar, fazendo ao mesmo tempo umas perguntas que o Monteverde, que tem prestado muitíssimos serviços, hoje me entregou.”

Fonte  Análise Social de Fernando Piteira Santos

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