A Correspondência de António Sérgio para Raul Proença – José Carlos Gonzalez
24 Ago 2011 1 Comentário
“(…)Vê-se, da parte de António Sérgio, um certo sentimento de «culpabilidade», uma certa reserva, uma espécie de adeus tristonho e meditabundo à monarquia.(…)”
Se algo diz de importante esta correspondência (183 cartas, bilhetes postais e congéneres de António Sérgio para Raul Proença, a um só sentido, já que as recíprocas não foram até hoje encontradas) diz isto: que dois homens, dois intelectuais, se estimam, por vezes se digladiam, mais ou menos acerba ou amavelmente; que um é corrigido pelo outro e vice-versa e que, enfim, são ambos o anverso e o reverso de uma forte e séria consciência crítica, e retrato a dois de uma época convulsa, tão criadora como desilusória.
Porquê e como se encontram estes dois homens? Que encruzilhadas e acasos lhes determinam, de longe, as próprias vidas e os respectivos trajectos culturais? Onde começa e onde acaba a convergência nas ideias, a diferença nos temperamentos, a quase «separação» política, a páginas tantas, sobretudo entre 1911 e 1914? Coisa bem difícil de precisar, se pensarmos desde logo que António Sérgio, a par e passo, se afirma «aristocrata» mas «socialista»; enquanto que Raul Proença, nos seus mais vivos momentos de intervenção cívica, é simplesmente um republicano, que se não furta a uma análise, tantas vezes implacável, das realidades e dos erros da própria República, pela qual tão aberta, física e frontalmente lutou.
Há um período sobremaneira crítico, e não só crítico mas tortuoso, da opinião de António Sérgio sobre a I República — é o que decorre sobretudo no ano de 1913, durante a sua estada no Rio Janeiro. As acusações feitas aos líderes republicanos podem chegar a espantar quantos sabem quais foram as posições de Sérgio um pouco antes, e resolutamente depois do Sidonismo. Proença funcionava então, ao que penso, como «confessor privilegiado», e é realmente lamentável não se ter conservado nem uma carta do «homem da biblioteca» desse período. Alvo predominante, «bête noire» da acrimónia de Sérgio é Afonso Costa, a quem (ironia do destino e da História!) tece nos anos de exílio em França rasgados elogios, e que adopta como um dos chefes incontestados da «Liga Republicana».
De resto, é pelo menos curioso que boa parte das cartas dessa época (1913) se encontrem rasgadas, truncadas, roídas ou esfaceladas… A pouco e pouco, porém, António Sérgio começa a fazer «amende honorable», a dizer-se «mal informado», a já não confiar tão radicalmente nas fontes de comendadores e «refugiados», que com tanta frequência ouvira e aceitara.
E mais curioso, e triste, é termos de convir que, logo no início de 1914, Sérgio sofre uma crise de desorientação psicológica e intelectual que o leva a recorrer a sanatórios na Suíça. Mas todo o homem é capaz de evoluir: António Sérgio foi-o. Transmudou, a partir sobretudo de 1918, as suas ideias de «indiferente» político, para uma cada vez maior aproximação ao ideário republicano.
No terreno plano dos factos, A. Sérgio e R. Proença encontram-se a princípio de 1911 (postal n.º 1, de Janeiro 1911):
Ex. mo Sr. Raul Proença
Há muito tempo ando a querer procurá-lo para lhe pedir colaboração nos Serões […].
É pois António Sérgio quem busca o encontro com o ainda bem jovem publicista de jornais regionais que, nesses tempos, representaram uma força de intervenção dinâmica e corajosa para o surgimento da República. Marca-lhe Sérgio sítios de encontro em Lisboa, nomeadamente no Cais do Sodré, e para quê? Para ter diante dele o espelho que lhe faltava, a voz dissonante mas cordial, a centelha dos tempos novos no velho país onde ambos herdavam glórias e derrotas, esperanças, conquistas, ideias, desamparo e angústia, no finisterra chamado Portugal.
Sérgio era o principal responsável pela revista Serões, de vida pouco longa, é certo, mas onde ficaram os nomes de Afonso Lopes Vieira, Carolina Michaëlis e José Leite de Vasconcelos. Para esses Serões concitava Sérgio a pena ágil, febril, rebelde e combativa de Proença, que tinha vindo a afirmar-se na Alma Nacional dirigida por António José de Almeida. E, de facto, Raul Proença publica nos Serões, n.º 72, Junho de 1911, um trabalho sobre «O Movimento Religioso Contemporâneo», no qual, entre vária temática, foca os problemas de «As tendências modernistas das religiões», «Modernismo e Unitarismo», «Crentes e Livres-Pensadores», etc.
António Sérgio, por sua banda, tendo aderido ao movimento da Renascença Portuguesa, embora «inimigo», como afirma em várias ocasiões, das posições ultramontanas, saudosistas e «lusitanófilas» de Teixeira de Pascoais, teve na Águia, primeiro órgão de imprensa desse movimento, uma tribuna larga, livre, contrastante, por exemplo nos n.os 25, 28 e 30, com artigos desferidos ao peito do grande poeta do Marão. No n.º 25, a «Despedida de Julieta», no n.º 28, «Regeneração e tradição moral e económica», e no n.º 30 «Explicações necessárias do homem da espada de pau ao arcanjo da espada dum relâmpago».Tudo isto se passa no ano de grandes convulsões internas e internacionais de 1914. Ainda não eclodira a guerra mundial. Mas tudo a fazia pressentir.
A disputa, «de espada alta», como dissera Augusto Casimiro (nesse tempo ao lado dos «integralistas») avançou e azedou a tal ponto que Sérgio só podia escrever na Águia e na Vida Portuguesa (sua paralela, mais didática e formativa) em termos de franca contestação. Contestação direita aos arautos do «integralismo lusitano» onde, logo de seguida, enfileiraram as figuras de António Sardinha e de Alfredo Pimenta, para não falarmos de outros…
«Vamos pela Vida, pela Liberdade, pela Beleza, pelo Direito, pela própria Vida». Foi esta a exclamação juvenil e honrada de Proença, em 3 números da Águia — 52, 53, 54 — unidos no volume Abril/Maio/Junho de 1916, nos quais a tónica dominante é o anti-imperialismo alemão, e a declarada adesão ao combate contra as pretensões de hegemonia germanóide em Portugal. Essa série de artigos prosseguiu, com o título «Unidos pela Pátria» nos n. os 64, Abril de 1917, e 65 e 66, de Maio e Junho do mesmo ano.
É no 1.º número de Pela Grei, em 1918, que Sérgio e Proença são parceiros nítidos pela primeira vez, depois dos encontros e desencontros na Águia e na Vida Portuguesa. Justamente nesse primeiro número, António Sérgio, principal responsável pela publicação, aparece com um artigo: «Da opinião pública e da competência em Democracia», e Raul Proença com: «O Problema das Bibliotecas em Portugal», continuado no n.º 3 da mesma revista (Fevereiro 1918), com novas achegas para a remodelação e democratização dos estabelecimentos de leitura pública e de investigação cultural no nosso país. Se cito de preferência estas publicações é por pensar que foram manifestações importantes, úteis e salutares no contexto conturbado da I República, e ainda porque, de alguma maneira, constituem o reflexo claro do que foi a cooperação entre António Sérgio e Raul Proença, por mais de duas décadas, prenúncio afinal do que viria a ser a Seara Nova, e a acção do Grupo da Biblioteca, a partir de Outubro de 1921.
Essa cooperação foi longa, mas também entrecortada, e mesmo nula por vezes, por razões sobejamente conhecidas, entre 1932 e 1938, quando Raul Proença sofreu o internato no Hospital Conde Ferreira, no Porto, após a sua «repatriação» forçada para Portugal.
No decorrer dos quase trinta anos de correspondência, o processo das relações humanas e intelectuais dos dois homens é exemplar, no sentido em que nos relata a fermentação, o labor, as contradições e os desgastes de toda uma geração que, feitas bem as contas, fez pela cultura portuguesa talvez mais do que muito sábia e «electrónica» gente possa pensar e dizer (ou ocultar), agora.
Já no domínio da política, das ideias e das práticas políticas, resulta evidente que a cooperação de A. Sérgio com R. Proença alcança plenitude no comum e partilhado exílio em França, após a golpada de 28 de Maio de 1926, e que mais se acentua com a falhada tentativa de reposição da legalidade republicana e democrática dos primeiros dias de Fevereiro de 1927, que teve em Proença um dos seus mais dedicados activistas.
Façamos uma rápida retrospectiva. A. Sérgio vai para Inglaterra no início de 1911. Razões desse auto-expatriamento? Várias, e contraditórias, que dariam só por elas um volume de algum peso e muita polémica. Mas não é disso que estamos aqui a tratar. Sérgio passa velozmente por Lisboa em Janeiro de 1912, apontando desta vez para o Brasil, onde vai permanecer dois anos. E é interessante verificar que sejam os expatriamentos (Inglaterra, Suíça, Brasil) os períodos mais férteis da sua correspondência para R. Proença. Faltava-lhe talvez o irmão, o confidente, o alter ego ? Muito possível.
Curioso é também que entre os anos 1927 e 1932 (em Paris e nos outros sítios da Europa) essa fertilidade e esse volume se renovem. Mas nesse tempo tratava-se de urgência política: o trabalho revolucionário contra a ditadura, no qual tanto Sérgio como Proença se empenharam a fundo. As tremendas implicações de ordem humana, nesse derradeiro e baldado esforço para recompor a legalidade e a Democracia foram da mais variada (e por vezes desvairada) ordem, e puseram em jogo políticos e escritores, cientistas e filósofos, homens de acção e de reflexão que tentaram, quanto podiam, levar a bom porto os seus intentos. Não posso deixar de referir entre eles Jaime Cortesão, sem dúvida um dos activos agentes de relações públicas internacionais pela causa da resistência no exílio.
Patente, de resto, está essa sua actividade de «pombo-correio» em vários passos desta correspondência, e patente o reconhecimento que lhe é feito como líder mental e moral nos movimentos patrióticos, nomeadamente em Espanha, dos emigrados políticos portugueses.Vê-se, da parte de António Sérgio, um certo sentimento de «culpabilidade», uma certa reserva, uma espécie de adeus tristonho e meditabundo à monarquia. O que de modo algum pode invalidar a outra imagem de António Sérgio, da sua séria dimensão de pensador, de sociólogo, pedagogo e reformador.
Raul Proença era, ao fim e ao cabo, um romântico, e por vezes um romântico exaltado. Passou a vida a tentar entendê-la pelo lado bom (chegou inclusivamente a cometer um livrinho de poemas a que chamou Elogio da Vida ). A vida, essa, pagou-lhe amargamente, e com o lado mau. Acontece a muito boa gente.
Os espaços em branco, os hiatos nesta correspondência de A. S. para R. P., são, de quando em quando, sonoros. Não ironizo, e explico-me: o tal sentimento de «culpabilidade » sergiano batia contra a testa obstinada de Proença, que devolvia a bola. E Sérgio sempre, ou quase, se sentiu obrigado a justificações. Repetidas vezes disse: «Para mim a M. (monarquia) vale a R.(república)…».
O calor antiditadura salazarenta de António Sérgio, expresso logo nas suas primeiras cartas de Paris, é autêntico, sério, fundamentado, sem sombras. Atrevo-me, no entanto, a dizer que Raul Proença sofria essa miséria política, moral e mental «mais por dentro». Exactamente porque era um romântico, herdeiro embora tardio do Sturm und Drang, «ideal-realista», como a si próprio se definiu numa série de artigos na Seara Nova, a propósito do livro de Julien Benda, La Trahison des Clercs. Ao passo que Sérgio se manteve sempre um cartesiano confesso. Mau grado as divergências — que apenas nos limitamos a apontar — o certo é que a convivência intelectual de António Sérgio e Raul Proença é um marco relevante na história da cultura portuguesa.
Dezembro, 1986
* Versão do texto de introdução ao volume António Sérgio: Correspondência para Raul Proença. Lisboa: Publicações Dom Quixote/Biblioteca Nacional, 1987. P. 13-18. Para esta publicação, que pretende recordar, em jeito de homenagem, «as mãos» do colega já falecido, apenas foram suprimidas as referências directas à primeira publicação que só aí fariam sentido.
Fonte AQUI






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