A IMPORTÂNCIA DO SOCIALISMO DEMOCRÁTICO NO ÂMBITO DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: opinião de Mário Soares
20 Out 2011 Deixe um Comentário
Nos dias 13 e 14 de Novembro de 2002 foi publicada no Diário de Notícias uma entrevista de Mário Bettencourt Resendes a Mário Soares. Nos inícios de 2003 esta mesma entrevista sai publicada em livro, cujo título é A incerteza dos tempos.
Da totalidade das respostas nele apresentadas, transcrevemos algumas em que o ex-Presidente da República e fundador do Partido Socialista, faz um balanço do que tem sido a posta em prática do “Socialismo democrático”, assim como quais os resultados por este trazidos para o bem estar, desenvolvimento e progresso das sociedades contemporâneas, logo, para um enquadramento específico e determinado do processo histórico. Aponta, por outro lado, e nesta sequência, caminhos que devem sem seguidos para que este mesmo Socialismo garanta, de forma adaptada aos tempos, cenários de desenvolvimento num presente e futuro caracterizados pela incerteza e imprevisibilidade:
“(…) Desde o fim da guerra fria que se vem a acentuar uma crise do socialismo democrático ou da social-democracia. O fenómeno mimético de certo socialismo com o neoliberalismo foi trágico e poderá explicar algumas derrotas socialistas recentes. (…)”
“A seguir, com o colapso do comunismo e o fim da guerra fria, o neoliberalismo avançou sem freios, dando lugar a uma forma nova e perversa do capitalismo, o capitalismo especulativo do nosso tempo, o “império” do dinheiro sem pátria, que, através das multinacionais, procura comandar o mundo, sem que para isso tenha qualquer legitimidade democrática.
O socialismo democrático sempre se caracterizou por associar a liberdade política à economia de mercado, com regras, manifestando-se contrário à estatização das economias, mas nacionalizando os sectores considerados estratégicos da economia ou entregando-os a empresas com maioria de capital público e desistindo de um tipo de planificação económica rígida, em moda no final da guerra. O mercado é o grande dinamizador da economia, mas gera enormes desigualdades sociais que cumpre ao Estado corrigir em defesa dos mais fracos. Nisto consiste o modelo social europeu, a segurança para todos, na doença, no desemprego e na velhice. A concertação social e o pleno emprego.”
“(…) A verdade é que o socialismo democrático é responsável por trinta ou quarenta anos de grande bem-estar para as populações europeias ocidentais, dando lugar a um grande desenvolvimento das classes médias e trazendo importantes benefícios para os trabalhadores em geral, incluindo o meio rural. Entramos agora num outro período da História, dada a revolução tecnológica e os imensos progressos da informática, que, nas sociedades democráticas ocidentais, reduziram grandemente o peso do operariado e do campesinato, alargando a importância dos serviços. O capitalismo, como disse, mudou de natureza. Entrou na fase especulativa, a chamada “nova economia”, recorrendo sem freios à “engenharia financeira”, abandonou os princípios éticos de que falava Max Weber no seu famoso artigo “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo” e tornou-se numa selva, na qual o que conta é a força do dinheiro e do poder militar. Surgiram os chamados “novos pobres” e aumentou exponencialmente o número dos excluídos. Mas as aspirações dos pobres a uma vida melhor e mais humana não mudaram. Apareceu, em tempo de globalização, o fenómeno da cidadania global. O socialismo democrático para se impor, tem de voltar ao terreno das lutas sociais (por onde começou) e saber dar resposta aos problemas novos do tempo de hoje, recusando intransigentemente as receitas do neoliberalismo, principal responsável pelo alargamento do fosso entre ricos e pobres e pelas chamadas “economias de casino”.
(SOARES, Mário- A incerteza dos tempos. Entrevista de Mário Bettencourt Resendes. Lisboa: Editorial Notícias, 2003, p. 59-62).
Salvador Dalí – Política
14 Out 2011 Deixe um Comentário
Contexto : a recusa do totalitarismo de nazis, fascistas e comunistas





